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‘Só quero tirar o rosto do meu filho de um desconhecido’, diz mãe de menino negro usado em tatuagem

“Tenho um lema que não me interessa a pessoa ser preta ou branca, mas se passar por cima do meu filho, da minha mãe ou dos meus orixás, eu vou passar também”, diz a microempresária e ialorixá carioca Preta Lagbara, de 42 anos. Desde o final de outubro, ela tem vivido o que chama de “bizarrice sem tamanho” quando descobriu que um homem desconhecido por ela tatuou sem autorização o rosto do seu filho Ayo, de 4 anos, em um evento de concurso.

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November 30, 2022
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<p class="has-small-font-size">“Tenho um lema que não me interessa a pessoa ser preta ou branca, mas se passar por cima do meu filho, da minha mãe ou dos meus orixás, eu vou passar também”, diz a microempresária e ialorixá carioca <strong>Preta Lagbara</strong>, de 42 anos. Desde o final de outubro, ela tem vivido o que chama de “bizarrice sem tamanho” quando descobriu que um homem desconhecido por ela <a href="http://tudo-sobre.estadao.com.br/tatuagem" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>tatuou sem autorização</strong></a> o rosto do seu filho Ayo, de 4 anos, em um evento de concurso.</p>

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<p class="has-small-font-size">A tatuagem em questão foi desenhada com base em uma imagem de Ayo feita pelo soteropolitano Ronald Santos Cruz. Preta descobriu que o rosto do filho foi parar no corpo de um homem branco desconhecido ao ser alertada por amigos, que viram a publicação nas redes do tatuador Neto Coutinho. O trabalho lhe rendeu um prêmio na categoria de “Retrato” da <strong>Tattoo Week</strong>, um dos principais eventos desse nicho no País.</p>

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<p class="has-small-font-size">“Não estou questionando o talento dele, mas não se pega uma foto de criança aleatoriamente e tatua no corpo de alguém que não tem vínculo afetivo ou emocional com ela”, aponta. Segundo ela, a foto original já havia viralizado online e sido repostada em sites internacionais até chegar ao Pinterest, uma rede social com “imagens inspiradoras”, onde teria sido encontrado por Coutinho, com quem tem tentado falar há um mês.</p>

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<p class="has-small-font-size">“Eu entrei em contato por mensagem direta, mas ele não respondeu. Comentei na página e ele apagou. Outros filhos meus do terreiro fizeram o mesmo e não conseguiram. Só depois que o caso começou a repercutir, ele conseguiu me responder”, diz Preta. “Só fui ouvida quando fiz barulho.”</p>

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<p class="has-small-font-size">A publicação de denúncia que Preta fez em suas redes sociais na última segunda-feira, 28, acabou viralizando e sendo compartilhada também por outros ativistas do movimento negro. No dia seguinte, o tatuador postou em seu próprio perfil um comunicado no qual ele se retrata pelo uso da imagem e pede desculpas a ela, aos familiares e ao próprio Ayo.</p>

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<p class="has-small-font-size">“Há de se evidenciar que, no caso em apreço, o artista pautou a execução da tatuagem sem o nível de informação necessária (sic), reconhecendo o equívoco cometido, mas - sobretudo - sem qualquer intenção de trazer prejuízo a quem quer que seja”, diz a nota, a qual ainda frisa que Coutinho se identifica como parte da comunidade preta.</p>

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<p class="has-small-font-size">Para Preta, entretanto, o tatuador teria “desumanizado” a criança ao usar sua imagem em um desconhecido. “Ele não é filho de chocadeira, tem mãe, pai e família”, disse ela em um vídeo. “Querem apelar para o meu ego dizendo que o Ayo é lindo e eu deveria agradecer pela arte, mas eu sei que ele é bonito, fui eu que pari.”</p>

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<p class="has-small-font-size">Com apenas 4 anos, o menino ainda não entende a gravidade de ter seu rosto marcado permanentemente na pele de um desconhecido. “Eu disse o que tinha acontecido e ele ficou parado me olhando, depois disse ‘não pode, não”, conta Preta. “Eu respondi que ‘não pode, porque você é da mamãe’, mas quando ele me viu chateada, disse pra eu não me preocupar: ‘Vai sair no banho quando lavar’”, relata ela, emocionada.</p>

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<p class="has-small-font-size">Ao <strong>Estadão</strong>, a organização da Tattoo Week explicou que nenhum dos premiados pelo evento recebem remuneração financeira, apenas um troféu, certificado e outros brindes de patrocinadores. Para o advogado Djeff Amadeus, diretor do Instituto de Defesa da População Negra e representante de Preta, o “dano moral” sofrido por ela “independe do valor econômico” que o tatuador tenha lucrado.</p>

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<p class="has-small-font-size">“Se você ganha seguidores em redes sociais, está ganhando dinheiro, mesmo que de forma indireta. Essa desculpa não cola”, comenta o advogado. Para ele, o caso ainda levanta outros debates, como direito e uso de imagem sem autorização, <a href="http://tudo-sobre.estadao.com.br/racismo" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>racismo</strong></a> por se tratar da figura de uma criança negra tatuada em uma pessoa branca e a própria regulamentação da profissão e de como ela é exercida.</p>

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<p class="has-small-font-size">Preta, entretanto, diz que quer apenas encontrar a pessoa que foi tatuada com o rosto de seu filho. “Só isso vai me trazer a paz total, porque eu não vou descansar enquanto essa tatuagem não for removida. Eu só quero tirar o rosto do meu filho do corpo de um desconhecido.”</p>

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<p class="has-small-font-size">Fonte: Estadão</p>

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