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Por que a geração Z bebe menos que as anteriores

Especialistas indicam que a redução do consumo de álcool pelos jovens é significativa e está espalhada pela maior parte dos países europeus de renda mais alta, além dos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.

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Redação
October 21, 2022
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<p class="has-small-font-size">Especialistas indicam que a redução do consumo de álcool pelos jovens é significativa e está espalhada pela maior parte dos países europeus de renda mais alta, além dos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.</p>

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<p class="has-small-font-size">Durante o lockdown, os australianos da geração Z mostraram-se mais dispostos a reduzir o seu consumo 44% informaram que estavam bebendo menos, o que é mais que o dobro do percentual de qualquer outra geração.</p>

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<p class="has-small-font-size">E, na Nova Zelândia, a incidência de consumo excessivo de álcool entre os jovens também caiu em mais da metade entre 2001 e 2012 e continua a cair até hoje.</p>

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<p class="has-small-font-size"><strong>Mas atribuir essa queda a um único fator é impossível.</strong></p>

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<p class="has-small-font-size">Os jovens da geração Z estão crescendo em um cenário social único. Sobrecarregados com preocupações sociais e financeiras, eles são mais avessos ao risco. E eles têm uma compreensão maior de como a bebida prejudica a saúde deles e das pessoas à sua volta.</p>

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<p class="has-small-font-size">Com isso, está florescendo uma cultura de juventude em que beber deixou de ser o normal, e essa mudança está se fazendo presente. O comércio e o setor de hotéis e restaurantes estão se movendo com rapidez para adaptar-se enquanto a geração Z redefine o conceito de "balada" e socializa muitas vezes sem beber.</p>

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<p class="has-small-font-size"><strong>Bem informados e avessos ao risco</strong></p>

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<p class="has-small-font-size">O declínio do consumo de bebida ocorre, em parte, porque a geração Z aparentemente é mais cautelosa que as anteriores, tanto em termos de saúde quanto da percepção de si próprios pelos colegas.</p>

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<p class="has-small-font-size">"[A redução do consumo de bebidas alcoólicas] certamente não está acontecendo devido às políticas contra o álcool, porque todas as práticas de risco estão diminuindo uso de drogas, sexo sem proteção e comportamentos arriscados (como o fumo, crime e direção perigosa). Os jovens em geral são mais avessos ao risco", afirma Amy Pennay, pesquisadora sênior do Centro de Pesquisa de Políticas sobre o Álcool da Universidade La Trobe, em Melbourne, na Austrália.</p>

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<p class="has-small-font-size">Um fator para essa mudança é o fato de que os jovens hoje em dia sabem muito mais sobre os perigos associados a esse tipo de comportamento. E, com maior disponibilidade de pesquisas e com a discussão aberta, o seu conhecimento é cada vez mais multifacetado, segundo Pennay.</p>

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<p class="has-small-font-size">Atualmente, é mais fácil do que nunca aprender mais sobre os riscos da bebida, seja com uma rápida pesquisa no Google, visitando comunidades no TikTok (como #SoberTok, em inglês) ou conversando com amigos e familiares.</p>

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<p class="has-small-font-size">A preocupação com a perda do controle e o desenvolvimento de dependência da bebida, por exemplo, é sensivelmente mais alta entre os jovens.</p>

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<p class="has-small-font-size">Uma pesquisa do Google em 2019 concluiu que 41% dos jovens da geração Z associam o álcool a "vulnerabilidade", "ansiedade" e até "abuso". E, no Reino Unido, 60% dos jovens da geração Z associam beber à perda de controle quase o dobro dos que não fazem essa associação.</p>

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<p class="has-small-font-size">Ondas de casos em que pessoas sofrem o golpe do "boa noite, Cinderela" em bares e baladas também pode dissuadir as pessoas de beber, especialmente as mulheres.</p>

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<p class="has-small-font-size">E, com as atividades dos jovens podendo ser exibidas em tempo real nas redes sociais para os amigos, familiares e até empregadores, perder o controle traz uma carga de risco.</p>

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<p class="has-small-font-size">A mesma pesquisa do Google indica que 49% dos jovens da geração Z afirmam que sua imagem online está sempre na mente quando eles saem para beber e socializar.</p>

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<p class="has-small-font-size">Por isso, não é surpresa que 76% deles acreditam ser importante estar no controle de todos os aspectos da sua vida, todo o tempo.</p>

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<p class="has-small-font-size">John Holmes, professor de políticas sobre álcool da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, acrescenta que também houve uma acentuada mudança de comportamento. A geração Z não só tem consciência mais profunda dos riscos à saúde, mas também rejeita ativamente a noção de embriaguez.</p>

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<blockquote class="wp-block-quote has-small-font-size"><p>"Em meados até o final dos anos 2000, beber demais e ficar embriagado era uma maneira de formar e solidificar amizades. Até experimentar juntos os efeitos negativos [da bebida] era uma parte fundamental da formação e manutenção de amigos na adolescência e no início da idade adulta", afirma ele. "Mas a geração Z costuma considerar a embriaguez desagradável, inconveniente ou desinteressante."</p></blockquote>

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<p class="has-small-font-size">Lola, por exemplo, fica desconfortável quando vê alguém muito bêbado. "Conheço poucas pessoas que bebem muito e ficam bem", afirma ela. "Ainda bem que a narrativa está mudando e as pessoas reconhecem que beber demais é ruim para elas."</p>

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<p class="has-small-font-size"><strong>Descontrair em meio a pressões financeiras</strong></p>

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<p class="has-small-font-size">Mas não só a aversão ao risco está reduzindo o consumo de álcool a forma como as pessoas encaram o lazer também mudou.Especialistas afirmam que isso, em grande parte, está ligado aos desafios que os jovens percebem que os aguardam no futuro, bem como à forma em que eles querem levar as suas vidas.</p>

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<p class="has-small-font-size">O uso da tecnologia e o consumo de conteúdo a todo momento fazem com que o lazer muitas vezes assuma a forma de fuga, ou de intervalo da extroversão das redes sociais.</p>

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<p class="has-small-font-size">Durante pesquisas no início dos anos 2000, em meio a uma era de alto consumo de álcool e drogas de recreação, Pennay lembra-se de ver jovens discutindo o abandono hedonístico e seu desejo de desligar-se "ficando obliterados e aproveitando o momento".</p>

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<p class="has-small-font-size">Agora, acontece o oposto. Para Pennay, os jovens da geração Z normalmente preferem recarregar suas baterias no tempo de descanso do trabalho ou aperfeiçoando seus estudos ou desenvolvimento pessoal.</p>

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<p class="has-small-font-size">Mas, embora o crescimento profissional seja prioridade entre os jovens, conseguir ganhar a vida já é suficientemente difícil.</p>

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<p class="has-small-font-size">Em 2022, a empresa de serviços profissionais Deloitte perguntou a quase 15 mil jovens da geração Z de todo o mundo qual a sua principal preocupação. Eles mencionaram o custo de vida em primeiro lugar (29%), acima das mudanças climáticas, do desemprego, da saúde mental e do assédio sexual.</p>

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<p class="has-small-font-size">Quase a metade deles (46%) afirmou que vive um mês de cada vez, preocupando-se com o pagamento das suas despesas. E, para fechar suas contas, 43% têm um segundo trabalho de tempo parcial ou integral além do seu emprego principal — 10% a mais do que os millennials (os nascidos entre 1981 e 1995).</p>

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<p class="has-small-font-size">"A forma como a geração Z mantém seu orçamento e suas economias é muito diferente das gerações anteriores, pois eles não podem entrar no mercado habitacional", afirma Pennay. "Por isso, alguns veem o álcool como um produto caro demais, que ofusca o quadro mais amplo."</p>

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<p class="has-small-font-size">Proteger sua saúde mental é o principal motivador da curiosidade de Lola sobre permanecer sóbria, mas o custo do álcool também representa um papel importante.</p>

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<p class="has-small-font-size">No início do ano, ela morou em Paris, na França, e lá ela bebia mais porque era muito mais barato. "Eu conseguia gastar 20 euros (cerca de R$ 102) e beber com frequência, mas, em Londres, esse dinheiro não chega", ela conta. "Mesmo se eu realmente quisesse me embriagar, eu não teria dinheiro para isso."</p>

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<p class="has-small-font-size"><strong>O efeito cascata das 'experiências de qualidade'</strong></p>

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<p class="has-small-font-size">Sejam quais forem as causas, mais jovens se afastando do álcool trazem um ambiente que facilita e até incorpora a sobriedade.</p>

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<p class="has-small-font-size">Jason, que tem 24 anos e mora em Nova York, nos Estados Unidos, parou de beber há três anos. Desde então, ele fez amizade com muitos outros jovens que não bebem.</p>

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<p class="has-small-font-size">"Beber é uma parte importante da cultura de Nova York e eu esperava enfrentar atritos, mas as pessoas com a minha idade e mais jovens são muito gentis e atenciosas sobre a minha decisão", ele conta.</p>

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<p class="has-small-font-size">Holmes acredita que as atitudes e o comportamento moderado em relação ao álcool da geração Z são um progresso natural.</p>

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<blockquote class="wp-block-quote has-small-font-size"><p>"O consumo de álcool cresceu ao longo da segunda metade do século 20, mas o hedonismo e o excesso de bebida do final dos anos 1990 e início dos anos 2000 foram um pico irracional", afirma ele. "As tendências de consumo vêm em longas ondas que sobem e descem - esperava-se que a bebida diminuísse em algum momento e era provável que as gerações mais jovens fizessem essa mudança."</p></blockquote>

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<p class="has-small-font-size">Naturalmente, a geração Z perdeu uma série de ritos de passagem para a idade adulta durante a pandemia e ainda não está claro se o intervalo de dois anos irá mudar a forma como os jovens veem a socialização no futuro.</p>

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<p class="has-small-font-size">Mas, de forma geral, Pennay não prevê um grande retorno ao consumo excessivo de bebida após a pandemia. Se for normal não beber com 17 anos de idade, será ainda mais normal com 18, 19 e assim por diante.</p>

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<p class="has-small-font-size">A geração Z agora representa um terço da população mundial e a indústria do álcool está se adaptando às novas preferências dos jovens.</p>

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<p class="has-small-font-size">Emma Hutchison, fundadora da agência global de bebidas Sweet & Chilli e proprietária de três bares em Londres, observou uma mudança entre os jovens, que agora priorizam a qualidade e não a quantidade. Em vez de beber diversos coolers, eles podem agora preferir um coquetel, com ou sem álcool, que dure toda a noite.</p>

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<p class="has-small-font-size">De fato, um estudo do final de 2021 concluiu que pessoas com mais de 21 anos de idade nos Estados Unidos preferem bebidas fortes como destilados ou refrigerantes alcoólicos, champanhe e bebidas com pouco ou sem álcool, no lugar de vinho e cerveja.</p>

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<p class="has-small-font-size">"Eles estão procurando experiências de qualidade que enriqueçam suas vidas", afirma Hutchison. "Os jovens da geração Z querem marcas que estejam de acordo com suas próprias mentalidades e estão tomando decisões mais conscientes sobre o que eles consomem."</p>

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<p class="has-small-font-size">Da mesma forma, a rápida expansão do setor de bebidas não alcoólicas e a inovação que ela traz enviou uma mensagem para os consumidores que não bebem ou que estão curiosos sobre a abstinência: os bares têm algo a oferecer para todos.</p>

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<blockquote class="wp-block-quote has-small-font-size"><p>"Antigamente, você podia sentir-se excluído no local de alimentação se não quisesse beber", afirma Hutchison. "Mas é muito estimulante ver bebidas não alcoólicas receberem a mesma publicidade, consideração e qualidade dos ingredientes das suas versões alcoólicas."</p></blockquote>

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<p class="has-small-font-size">A maior diversidade de opções também está trazendo dividendos. Ao contrário do álcool, a categoria sem ou com pouco álcool vem crescendo consistentemente e a empresa líder na análise do mercado de bebidas IWSR prevê que, até 2024, o volume total de consumo crescerá em mais de 31% no Brasil, Austrália, Canadá, França, Alemanha, Japão, África do Sul, Espanha, no Reino Unido e nos EUA.</p>

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<p class="has-small-font-size">Após a pandemia, os bares e restaurantes também aumentaram sua oferta de experiências para atrair todas as gerações, especialmente a geração Z. Eles acrescentaram mesas de pingue-pongue e de shuffleboard, por exemplo.</p>

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<p class="has-small-font-size">"Existe enorme desejo de socializar-se em espaços que tenham sido e ainda são associados a 'sair para beber'", segundo Hutchison. "Mas, com a indústria patrocinando alternativas, será mais um espaço seguro para que a geração Z se socialize, conecte-se e aproveite ricas experiências de comidas e bebidas."</p>

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<p class="has-small-font-size">Como ocorre com a maioria dos jovens com 24 anos de idade, Jason tem uma vida social concentrada em cafeterias, restaurantes, partidas esportivas e noites com amigos. Ele gosta de experimentar atividades alternativas que não envolvam bebida.</p>

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<blockquote class="wp-block-quote has-small-font-size"><p>"Vou a festas sem bebida e a festas onde as pessoas bebem. Eu gosto de ser ativo e sair", ele conta. "Tem sido revelador para mim perceber que você pode ser jovem e abstêmio e ter amizades muito intensas."</p></blockquote>

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