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Governador de Minas Gerais quer separar Norte e Nordeste do resto do Brasil

“O Norte e Nordeste é que mandariam. Aí, nós falamos que não. Se temos 56% da população, nós queremos ter peso equivalente"

Escrito por
Letícia Misna
August 8, 2023
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No último dia 5 de agosto, o jornal Estadão publicou uma entrevista com o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Partido Novo), que gerou polêmica. Em suas falas, o político afirmou que os sete estados que compõem as regiões Sul e Sudeste são os protagonistas do Brasil.

“Temos o Grupo do Cossud. Na verdade, ele já existia, mas nós formalizamos o Consórcio Sul-Sudeste, que reúne os sete Estados das duas regiões. A cada 90 dias, nós nos encontramos para trabalharmos de forma conjunta. Também já decidimos que além do protagonismo econômico que temos, porque representamos 70% da economia brasileira, nós queremos – que é o que nunca tivemos – protagonismo político. Outras regiões do Brasil, com Estados muito menores em termos de economia e população se unem e conseguem votar e aprovar uma série de projetos em Brasília. E nós, que representamos 56% dos brasileiros, mas que sempre ficamos cada um por si, olhando só o seu quintal, perdemos. (...) O Norte e Nordeste é que mandariam. Aí, nós falamos que não”, disse Zema.

Em seguida, após falar sobre a grande economia do Cossud em relação ao restante do país, o governador lamentou dizendo: “Está sendo criado um fundo para o Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Agora, e o Sul e o Sudeste não têm pobreza? Aqui todo mundo vive bem, ninguém tem desemprego, não tem comunidade...Tem, sim. Nós também precisamos de ações sociais”.

De acordo com Zema, o “bloco” já possui CNPJ e terá escritório em Brasília. E só não havia sido formalizado antes porque João Dória, na época governador de São Paulo, sempre foi um candidato em potencial para a presidência do Brasil, então os demais governadores não se sentiam confiantes com a iniciativa. Agora, perderam o “medo”.

A agenda prioritária do Cossud, conforme o governador, é a reforma tributária e a representatividade no Senado (por enquanto). “Temos feito o mesmo trabalho com os senadores de nossos Estados e o que nós queremos é que o Brasil pare de avançar no sentido que avançou nos últimos anos – que é necessário, mas tem um limite”.

MURO JÁ?

Nas redes sociais, muitos internautas se posicionaram a favor das falas do governador, compartilhando uma imagem que sugere a construção de um muro dividindo o eixo Norte-Nordeste do Sul-Sudeste (e Centro-Oeste).

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Alguns políticos do Amazonas também se posicionaram, fazendo críticas às declarações:

“É preocupante o discurso do governador de Minas, Romeu Zema, incitando uma guerra entre regiões afim de evitar perdas econômicas para o Sul e Sudoeste. As regiões Norte e Nordeste são penalizadas há anos por inúmeros projetos nacionais e uma união entre os dois não significa uma guerra entre os demais estados. Não podemos embarcar em uma onda separatista. Devemos buscar contribuir para o desenvolvimento do país como um todo. O Brasil precisa crescer unido”, afirmou o deputado federal Adail Filho (Republicanos).

“Como cidadão amazonense e representante político da população do meu estado na Câmara Federal, fico preocupado com declarações que parecem favorecer a divisão entre nossas regiões, ao invés de promover a colaboração e o entendimento mútuo. O Brasil é forte quando é unido, e precisamos de líderes que incentivem a conexão e o respeito entre todos nós. A declaração de Zema corta profundamente os laços que unem nossa nação. Aqui no Norte, sabemos o valor da solidariedade e da união. O Brasil precisa de pontes, não de barreiras. Tal fala não representa o Brasil que acredito”, falou o deputado federal Sidney Leite (PSD).

“Eu vejo a fala do governador Romeu Zema muito mais como oportunista do que por convicção do que estava falando”, destacou o deputado federal Saullo Viana, relembrando que recentemente Minas Gerais passou por uma crise financeira entre 2017 e 2018.  “Durante esse período, o estado enfrentou dificuldades para cumprir suas obrigações financeiras, incluindo o pagamento dos servidores públicos. Foi o esforço coletivo de toda a nação, incluindo o Amazonas, facilitado pelo governo federal, que acabou ajudando a superar a crise”.

“O Senado é uma Casa de políticos maduros e experientes. E que são políticos já experimentados em várias funções públicas. É claro que a declaração do governador Zema foi muito infeliz. Creio que não cabe no Brasil de hoje uma disputa desta forma como proposta, diria eu até que foi um sincericídio infeliz do governador. Eu não creio que haverá no Senado esse espírito de disputa e muito menos de revanchismo”, afirmou o senador. Lamentavelmente, é uma realidade que nós imaginávamos que já tínhamos vencido essa. Era uma ideia do Brasil colônia, que olhava as regiões Norte e Nordeste como um Brasil de segunda classe. Nós não vamos o comportar dessa maneira, nós queremos um Brasil igual para todos, de oportunidades para nortistas e nordestinos, para todos. Nós defendemos um país para todos, e não vamos entrar nessa provocação infeliz de dividir os brasileiros”, declarou o senador Eduardo Braga.

O governador do Amazonas, Wilson Lima, e o prefeito de Manaus, David Almeida, não se manifestaram a respeito. Outros políticos também permaneceram omissos.

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