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Constelação Familiar: Terapia polêmica usada no judiciário brasileiro “ajuda” vítimas a perdoar seus agressores

A prática não tem comprovação científica.

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Redação
July 14, 2023
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<p class="has-text-align-right"> Por: Letícia Misna<br>Lucas Albarado</p>

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<p>A Constelação Familiar foi desenvolvida por Bert Hellinger, na Alemanha, na década de 1980, e divide opiniões até hoje.<br><br>A técnica consiste em uma espécie de “terapia de grupo”, mas não tão simples assim de entender: nas sessões há uma espécie de teatro, onde pessoas (ou elementos, como bonecos) representam os papéis dos envolvidos no problema do paciente, enquanto ele assiste, e dessa forma seu problema é, supostamente, resolvido.<br><br>A prática, que não tem comprovação científica, usa o “amor” como centro de tudo, e fortalece a imagem da família, estabelecendo que cada membro deve cumprir o papel ao qual foi designado: pai é pai, mãe é mãe, filhos são filhos, e a ordem hierárquica e patriarcal deve ser seguida – com as figuras femininas majoritariamente sendo apontadas como as culpadas pelos distúrbios insurgentes.<br><br>O tratamento foi incorporado às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) do Sistema Único de Saúde (SUS), e tem sido usado pelo Conselho Nacional de Justiça como prática nas Mediações de Conflitos das Varas de Família, em diversos casos, até mesmo em situações criminais, onde vítimas são convencidas a perdoar seus agressores, afinal, <em>o amor tudo suporta.</em></p>

<h2>O CRIADOR</h2>

<p><em>“Estou certo de que este livro ajudará muitas famílias a encontrar a solução para os problemas que sempre lhes pareceram insolúveis. Então o amor poderá unir de novo todos os membros da família”, </em>é assim que começa o livro de Berth Hellinger, Ordens do Amor, a principal base para a Constelação Familiar.<br><br>Anton "Suitbert" Hellinger nasceu na Alemanha em 1925, em uma família católica. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), serviu às forças armadas de seu país. Após o período, estudou Filosofia e Teologia, e se tornou padre, chegando a fazer missões na África, onde morou por 16 anos. “Suitbert” é o nome com o qual foi consagrado na igreja, saindo daí o <em>Bert</em>.<br><br>De acordo com suas biografias, Hellinger também se formou em Pedagogia, e se tornou psicanalista, com estudos em Terapia Primária, Análise Transacional, Hipnoterapia Ericksoniana e Programação Neurolinguística. A partir disso, criou seu próprio método de tratamento.<br><br>“O que eu observei foi: uma criança é parida com dor, e esta dor continua durante  toda uma vida. Através da Constelação Familiar nós superamos esta dor. Através da Constelação Familiar o cliente retorna à mãe, e esta é a experiência mais bela na vida. A mãe carrega o filho dentro do ventre, não há uma forma mais íntima. Da mesma forma, um filho também sempre é o filho do pai, mas em primeiro lugar é o filho da mãe. E é por isso que em primeiro lugar nós levamos o cliente em direção à mãe”, disse Bert em uma entrevista.<br><br>Após sair da vida religiosa, em 2002 se casou com Sophie Hellinger. Em 2004 escreveu um poema em homenagem a Adolph Hitler. Em 2011 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Em 2019 faleceu.</p>

<h2>CONSTELAÇÃO</h2>

<p>Na língua portuguesa, de acordo com o dicionário Michaelis, a palavra “constelação”, além de sua associação direta com estrelas, significa “grupo, coleção ou reunião de coisas que se caracterizam por partilhar uma qualidade comum, de modo que se constitua em um todo coerente”. A expressão “constelação familiar” é uma tradução direta do termo alemão <em>familienstellen, </em>que se caracteriza por definir exatamente isso: colocar cada ser em seu lugar.</p>

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</div><figcaption>Reprodução: Youtube</figcaption></figure>

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<p>A técnica é usada para tratar variados casos de conflitos familiares, e muitos pacientes relatam que ela de fato proporcionou uma melhora em suas questões. Mas a principal polêmica no Brasil é o fato do mecanismo ser utilizado no âmbito judicial para conciliar crimes.<br><br>O juiz Sami Storch foi quem inseriu a prática no judiciário, e criou a expressão “Direito Sistêmico”.<br><br>“Às vezes a pessoa se sente vítima, culpa o outro, e quando observa de fora daquela dinâmica através dos representantes, ela vê que ela mesma não estava olhando pra algo que precisava ser visto, algo oculto na realidade do outro, que pode ser alguma questão relativa aos antepassados, que aconteceu com os pais, com os avós, alguma tragédia familiar”, disse Storch em uma entrevista, ao explicar também que a técnica não substitui o tratamento legal, mas pode auxiliar para que o tratamento jurídico seja mais eficaz. “É algo que olha para ambos os lados, tanto pro agressor, quanto para vítima.”<br><br>O Conselho Federal de Psicologia (CFP) afirma que as constelações não possuem base científica, e não recomenda o uso da prática por seus profissionais, embora haja uma crescente de psicólogos se tornando consteladores. </p>

<p>Para o CFP, a abordagem viola o sigilo dos pacientes, reforçando preconceitos e expondo as vítimas de violência e de casos graves, como o estupro.  Atualmente, vários tribunais utilizam a técnica como forma de resolver os conflitos no judiciário.<br><br>Em março de 2022, uma reunião para debater a Constelação Familiar foi convocada no Senado, onde apoiadores e profissionais contrários à prática foram ouvidos.</p>

<p>“Em termos de ciência, sobre as constelações familiares, tudo o que temos hoje são opiniões. Elas podem ser respeitadas, mas são opiniões. Não há ética ou ciência que justifique sua presença em espaços públicos, com dinheiro público”, destacou Tiago Tatton, diretor-geral da iniciativa Mindfulness no Brasil.</p>

<p>De acordo com o Sistema único de Saúde (SUS), apenas em 2019, foram realizados cerca de 1.383 procedimentos de Constelação Familiar, por meio das Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PICs).</p>

<h2>ESTRELAS CAÍDAS</h2>

<p>Em 2021, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) colocou a Constelação Familiar sob análise, após a denúncia de uma mulher de 56 anos, que informou que uma juíza, que é consteladora, passou a humilhá-la após desistir da pseudo terapia. </p>

<p>A vítima relatou que era agredida por anos em seu relacionamento e, em uma das brigas, o marido quebrou sua mandíbula e três dentes. Ela disse que resistiu à situação para não perder a guarda da filha. </p>

<p>Durante o processo, a juíza do caso aconselhou que ela fizesse sessões de Constelação Familiar, mas ao desistir da terapia, passou a ser constantemente desprezada e humilhada pela magistrada. </p>

<p>Os procedimentos aconteciam com mulheres vítimas de violências e abusos, que por muitas vezes eram obrigadas a ficar diante de seus malfeitores para tentar “resolver o conflito”. A vítima disse que o ambiente era degradante, sendo obrigada a reviver o trauma. </p>

<p><strong>Além do CFP, o Diário da Capital entrou em contato com alguns outros órgãos para saber seus posicionamentos a respeito da prática, e essas foram as respostas:<br></strong><br><strong>Tribunal de Justiça do Amazonas: </strong>“A coordenação do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc-Família), do Tribunal de Justiça do Amazonas, informou que não utiliza a referida prática nas questões de Família.”<br><br><strong>Serviço Social: </strong>“A comissão de Orientação e Fiscalização do Conselho Regional de Serviço Social informa que este regional acompanha o posicionamento do Conselho Federal do Serviço Social que é contrário à pratica terapêuticas no âmbito do Serviço Social. Quanto instituição que normatiza, orienta e disciplina o exercício profissional, o Conselho Federal emitiu Res. CFESS Nº569/2010 que dispõe sobre a VEDAÇÃO da realização de terapias associadas ao título e/ou ao exercício profissional do assistente social.”<br><br><strong>Conselho Regional de Psicologia da 20ª Região (que representa o Amazonas e Roraima):</strong> “A nota em questão [do Conselho Federal] reflete o posicionamento de todos os Conselhos Regionais de Psicologia do país, incluindo o CRP-20.”<br><br>Questionada sobre o assunto, a <strong>Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Amazonas</strong> nos mandou procurar a <strong>Comissão de Direito Médico e da Saúde</strong>, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos resposta.</p>

<h2>CONSTELADORES</h2>

<p>A psicóloga Ascenção Nascimento é uma consteladora. Ou Facilitadora de Constelação Familiar Sistêmica, como ela se apresenta, e trabalha no ramo há oito anos.<br><br>“O tema “família” sempre me fascinou. Seus desafios, seus conflitos, suas diversidades, assim fui ao encontro da psicologia. Depois fiz Especialização em Relações Familiares Sistêmica, e buscando cada vez mais encontrei a Constelação Familiar Sistêmica. Eu não sabia o que era, mas como queria estudar família, peguei o avião e fui para São Paulo, onde tive o primeiro contato com a Constelação e até hoje não parei mais de estudar. Em 2016, Berth Hellinger esteve no Brasil e pude conhecer a Constelação Familiar diretamente com seu criador, em um evento em São Paulo”, disse.<br><br>Sobre suas sessões, Ascenção explica que “o cliente quando chega sempre vai mostrar a máscara, aquilo que ele quer que você veja, e vai esconder as sombras. Todos nós fazemos isso em algumas situações. Na constelação também funciona assim, há dinâmicas que o cliente quer mostrar e há aquelas que ele não quer mostrar, mas que aparecem no sistema em uma constelação. Pedimos para o cliente colocar as informações que estão na cabeça dele em um campo. Pedimos para que ele coloque elementos como: ele adulto, ele criança, os pais, o marido ou a esposa, os filhos a sexualidade, futuro, passado e objetivos de vida. Ele posiciona da forma que ele sente a história e o constelador analisará a história por meio das leis sistêmicas. Posicionamento, distância, direcionamento, significado. O que é casamento para ele? O que é função pai, função mãe.”<br><br>Para ela, a Constelação é uma ferramenta de trabalho muito importante, se utilizada por um bom profissional. “Nas mãos de um leigo, com certeza será mal utilizada e não trará resultados”. Ascenção explica ainda que o constelador não trata ninguém, “ele ajuda o cliente a trazer consciência das dinâmicas de emaranhamentos que a pessoa traz ou está vivendo, mas a tomada de consciência é pessoal. Pode ser que ela veja o que está lhe adoecendo, mas não queira ver, ou é muito difícil ver, muito sofrimento. É muito difícil acessar a memória de dor.”<br><br>“Às vezes, um filho carrega mandatos da mãe, que já morreu há dez anos, e esse filho segue cumprindo as regras que essa mãe cobrava, e perceber que isso já ficou no passado é libertador”, ressalta ao analisar que os resultados de suas sessões sempre foram muito positivos.<br><br>Questionada sobre a declaração do Conselho Federal de Psicologia, a psicóloga disse: “eu respeito a decisão do CRP. Amo e honro a minha profissão, mas não entro nesse mérito.”<br><br>O advogado Clynio Maurício, constelador há 10 anos, conversou com o Diário da Capital e falou um pouco sobre sua experiência. Apesar de conversarmos e buscarmos o conhecimento dessa técnica, Clynio afirma que só uma participação em uma das sessões é possível explicar de fato como o processo acontece, sendo melhor entendido por meio da vivência. </p>

<p>Maurício já foi presidente da Comissão de Direito Sistêmico, e ele explica que a terapia sistêmica é breve, às vezes terminada em uma única sessão, pois os problemas a serem conciliados são pontuais, e podem ser resolvidos de forma rápida. </p>

<p>“Em um trabalho como advogado, minha cliente atrasou o aluguel em 15 dias, e sua filha foi ofendida de muitas formas pela locatária, o que levou o caso à Justiça, por injúria. Eu conversei com a parte que representava e com o advogado da outra parte, e perguntei se podia falar com a dona do ímovel que estava sendo processada. Em uma rápida conversa, ela pediu desculpas e as coisas se acertaram, não valia a pena continuar com aquele processo. O Direito é paz social”, disse.</p>

<p>De acordo com ele, a Constelação é benéfica dentro do judiciário, e ajuda a conciliar os conflitos em até 80%. Ele possui mais de 200 casos de sucesso com a prática, e já foi convidado pela OAB para dar palestras sobre o tema nas cidades de Boa Vista e Parintins. </p>

<p>Ele também indica a série “Uma Nova Mulher” para aqueles que quiserem entender a terapia sistêmica de forma mais simples. A produção da Netflix trata da vida de três amigas e seus conflitos diários, desde problemas nos relacionamentos amorosos a doenças. </p>

<p>Clynio revela que a Constelação Familiar também está ligada ao Campo Morfogenético, que são padrões, estruturas e ordens. Criada pelo biólogo Rupert Sheldrake, os campos morfogenéticos não levam energias, e sim, informações. </p>

<p>De acordo com Sheldrake, para que a Constelação funcione, o ponto principal não é olhar o presente, ou vislumbrar o futuro, mas o passado. Para os profissionais que estudam essa área, para que os conflitos sejam resolvidos, precisamos entender quem somos, e como memórias ancestrais podem influenciar nossos hábitos. Os campos mórficos compreendem o espaço-tempo e, entendendo essas emoções e seus resultados, é possível enxergar o porquê de acontecimentos negativos no hoje.</p>

<h2>COM A PALAVRA, A CIÊNCIA</h2>

<p>Segundo a psicóloga Ascenção, a Constelação Familiar possui várias bases científicas, como Teoria Geral dos Sistemas, Dinâmicas de Neurônio Espelho, Genética, Epigenética, Gregory Bateson e Física Quântica.</p>

<p>O juiz Sami Storch também fala em Física Quântica, afirmando que ela “é uma explicação pra esse fenômeno que acontece, uma abordagem fenomenológica, simplesmente acontece. Nós observamos e nos deixamos guiar por aquilo que surge (...). Não precisa necessariamente entender, precisa observar e sentir.”</p>

<p>Camilla Mylena, mestre em Astrofísica e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), explica que tentar compreender a Física Quântica é um problema desde que ela surgiu, e talvez seja por isso que muitas áreas usam o termo para incrementar suas teorias.</p>

<p>“Richard Feynman dizia que, se alguém afirma que entendeu a Física Quântica, é porque na verdade não entendeu nada. E eu acho que é por esse “mistério” que muitas pessoas acabam se aproveitando e abusando da palavra “quântica”. Como a Física é uma ciência que busca descrever e prever fenômenos naturais, precisamos de leis ou teorias que na nossa linguagem são equações matemáticas. Só que nem tudo obedece a uma mesma lei e aqui entra o problema da escala”, diz.</p>

<p>“E esse é o motivo de irmos contra essas práticas terapêuticas que utilizam de forma irresponsável a “quântica”. Na verdade, elas não têm nada a ver com a Física Quântica de fato que conhecemos e que é uma ciência. Então se não há comprovação científica, tratamos como pseudociência”, ressalta a cientista.</p>

<h2>CONSULTA PÚBLICA</h2>

<p>Como consulta pública nº 1 do ano de 2022, o Senado Brasileiro questiona a população sobre o banimento da Constelação Familiar das instituições públicas. Proposta pelo mestre em direito, Mateus Cavalcante de França, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), a já passa de 25 mil votos a favor do banimento, e pouco mais de 12 mil contra. Para participar da consulta, basta clicar <strong><a href="https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=151905" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui.</a></strong></p>

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