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<p>Circular pelas ruas de Manaus é se deparar com uma verdadeira “galeria a céu aberto”. Podemos dizer que todos os dias, cruzamos com inúmeras obras de graffiti espalhadas em muros, prédios ou viadutos. Conquistando cada vez mais espaço, renomados grafiteiros amazonenses se dedicam em proliferar a arte urbana, imprimindo na capital, vivacidade e impacto visual. Para representar essa ideologia, o Diário da Capital convidou quatro artistas para falar sobre os desafios e os preconceitos que enfrentam corriqueiramente.</p>
<p>“Não é apenas pintar um simples muro, mas sim abordar temas que transformam pensamentos”, esclarece Mia Montreal. Natural de Manaus, a artista conheceu esse estilo de vida aos 15 anos de idade, e vem aprimorando suas técnicas com o spray há mais de 13 anos. “O grafite é um elemento da cultura Hip-Hop, pode se dizer que a cada intervenção, ele transmite mensagens de cunho social. Considero o mesmo como uma galeria a céu aberto. A intenção de interferir na paisagem da capital, tem como objetivo levar cultura para crianças e adolescentes vulneráveis à criminalidade, dando a oportunidade do primeiro contato com o grafite, seja visual, na prática ou na troca de ideia, gerando conexão com o público abrindo caminhos para uma nova geração de artistas. Particularmente, como artista, o grafite traz uma gama de importância, e uma das que eu mais amo é que ela traz vida, cores e beleza para os lugares e superfícies da cidade, principalmente os temáticos amazônicos valorizando assim nossa região”.</p>
<p>A jovem, através da arte urbana, faz das Zona-Sul e Zona-Norte o cenário ideal para retratar a presença feminina. “Sigo retratando mulheres desde que voltei a pintar em 2014, sejam artistas renomadas, ativistas ou até mulheres simples da periferia, o ideal é sempre trazer visibilidade para o universo feminino com pautas importantes. Cada desenho vai ressaltar a grandeza e a importância da mulher para a sociedade. O grafite entrega principalmente experiências particulares. Nossa escola é nos muros da cidade, visando também trazer mais arte e cores para lugares cinzas de Manaus”, declara Montreal.</p>
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<h2><strong>Contraste e vulnerabilidade</strong></h2>
<p>Mia, evidencia a aceitação do público ao levantar as diferenças de estilos que existem no movimento artístico. “O público tem aceito muito mais pela diversidade do que pela origem, que são os lettering, traw up, wild style e os Bombs. O menos aceito é o Pixo, alguns artistas se familiarizaram ou tem mais habilidades com o que chamamos de “personas”, suas técnicas são mais aprimoradas nessa área, daí então no mural coletivo ou individual o público se "adaptou" de alguma forma”.</p>
<p>O contraste entre os dois modos de se expressar gera inúmeros julgamentos. Apesar das duas modalidades seguirem a mesma vertente de ‘expressão artística’, há algumas diferenças entre grafite e pichação. Enquanto o grafite é considerado como uma arte contemporânea, as pichações são sinônimo (do senso comum) de vandalismo, por ser feita majoritariamente sem autorização. De acordo com a Lei 12.408, o grafite deixou de ser considerado crime, desde que ocorra o consentimento do proprietário, com o intuito de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística. Por outro lado, esta não é uma realidade para o pixo. Considerado ilegal desde 1998, a pena pode ser de três meses a um ano de detenção e multa.</p>
<p>Apesar do grafite não ser classificado como crime, Mia reitera que os problemas de atuar na área são outros. “Segurança? Para nós mulheres? Quando se trata de gênero sempre estaremos vulneráveis em todos os lugares. Eu estive pensando sobre isso esses dias e percebi que eu nunca pintei sem que eu não estivesse acompanhada, e pelo que acompanho sobre outras artistas, sempre há um coletivo de mulheres que se juntam para ir grafitar. Resumindo, não nos sentimos seguras”.</p>
<h2><strong>A arte que causa reflexões </strong></h2>
<p>O produtor cultural e grafiteiro, Jarbas Lobão, acredita que o movimento “faz uma interferência visual no ambiente, e uma das finalidades é provocar os transeuntes a pensar, refletir sobre a mensagem que muitas das vezes que se é passada pelo autor. Essa mesma indagação que a arte causa, faz com que desperte em muitos o desejo de fazer parte do movimento e isso faz com que o movimento hip hop, o elemento do graffiti, se transforme em uma ferramenta de inclusão social. Somos um Estado onde se forma uma quantidade enorme de artistas autodidatas”.</p>
<p>Lobão, conta que o graffiti é uma “virada de chave” para transmitir o seu estado de espírito e instigar questões sociais que incomodam. Ele também defende a importância da pichação.</p>
<p>“A estética é um diferencial, quando uma é feita com muitas cores, o pixo são caligrafias monocromáticas, ambas são artes transgressoras. Acredito que a pichação sempre terá esse olhar marginalizado pela sociedade, mas no entanto, isso não impede que a própria pichação chegue longe e conquiste muitas coisas antes inimagináveis, como expor em uma galeria dentro e fora do país, por exemplo, como já aconteceu e acontece”.</p>
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<h2><strong>Mensagens por meio da arte</strong></h2>
<p>Fazer a população entender as raízes amazônicas, é uma das mensagens do grafiteiro Alessandro Hipz. Quem anda pela área central de Manaus, consegue ver de perto as suas obras que o mesmo classifica como “figurativos, elas nascem da imagem da mulher amazônica, seja indígena, negra, ribeirinha e urbana. A maior mensagem que está nas minhas obras é fazer nosso povo se vê nas artes, entender o quão rico e bonito nosso povo e cultura”.</p>
<p>Além de considerar a pratica artística como ‘luxo’, Hipz afirma que “o graffiti e a pichação foi o que estava mais próximo de praticar arte, e como sempre gostei de desenhar desde criança, esse contato me abriu um mundo. O Graffiti e a arte são a minha vida, são 22 anos vivendo isso, é de onde vem meus amigos, é o meu sustento da alma e meu trabalho”.</p>
<p>Hipz também comenta que ainda é necessário quebrar estigmas dentro do movimento artístico. “Abro esse parênteses, porque não é errado ganhar dinheiro com seu trabalho artístico. Por muito tempo foi imposto que nossa força motora era só para servir e ser mão de obra barata, e quebrar esse estigma é dever de todo artista de graffiti. A cada ano ele vem ganhando prestígio, em 2020 foi reconhecido como patrimônio cultural do estado, fruto de muito trabalho dos artistas da cidade. O graffiti como expressão artística é uma forma de afirmação cultural do nosso povo, representar a cultura amazônica nas artes eleva a estima enquanto sociedade”, finaliza o artista.</p>
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<h2><strong>Demarcação de território </strong></h2>
<p>Em meio a propagandas, cartazes e letreiros comerciais, também podemos encontrar a arte de Biels. Por conta do contexto histórico, podemos encontrar os famosos “thrown-up”, em diversos bairros da capital, porém o foco do artista é a região central e adjacências.</p>
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<p>O mesmo utiliza da linguagem para expor um grito de existência: “Mesmo que simplificados em duas letras o que faço nas telas de Manaus é uma demarcação de território, não só de que o espaço é meu, mas de que eu existo aqui, eu sou daqui, eu sou fruto da minha cidade, do meu ambiente e dos meus ideais. Não tenho o intuito de comunicar algo mais profundo ou crítico, pois seria hipocrisia dizer que meu thrown-up na parede diz isso, eu apenas quero ser visto, sentido e lembrado dentro da cidade com o que faço”.</p>
<p>“O graffiti me fez conseguir tudo que tenho, meu trabalho, meus bens materiais, minhas amizades, meu trampo, é um estilo de vida do qual tudo se observa com a percepção de ser um espaço propício a se pintar algo, muda a visão de como você se comunica na cidade, você perde medos, aprender a ser humilde, a lidar com situações das mais adversas. Ser conhecido é consequência de uma cena bem feita ou muito espalhada”, finaliza o grafiteiro.</p>