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Manaus: Falta de lazer e cultura na maior metrópole do Norte

Nos últimos anos, Manaus esteve entre as cidades com menos acesso a cultura e lazer para a população do Norte e Nordeste

Escrito por
Lucas Albarado
November 7, 2023
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Manaus comemorou 354 anos de fundação no dia 24 de outubro, e depois de tantos anos, o lazer público ainda é um desafio para as regiões mais afastadas da cidade, principalmente para crianças e adolescentes, que dependem de seus responsáveis para se deslocar. 

Os principais atrativos da cidade estão concentrados no centro da cidade, como o Teatro Amazonas e o Palacete Provincial. Um único grande parque na zona leste, o Museu da Amazônia (MUSA), é opção para os bairros próximos à Cidade de Deus. 

Andando pelas ruas de Manaus é possível observar várias quadras poliesportivas, que em sua maioria estão abandonadas pelo tempo, ou mesmo depredadas por pessoas má intencionadas, tirando muitas vezes o único lugar que a população ao seu redor teria para seu lazer. 

Importante lembrar que lazer não é apenas um local para jogos de bola ou prática de exercícios, já que muitas vezes o termo é relacionado apenas a isso. 

Lazer é oferta de biblioteca, pinacotecas, cinemas comunitários, exposições de arte e liceus de arte e ofícios, por exemplo. 

De acordo com uma pesquisa realizada pela ‘JLeiva Cultura e Esporte’, em 2018, nas regiões Norte e Nordeste, Manaus era a cidade em que menos as pessoas iam ao teatro, sendo apenas 23% da população, e shows 37%. 

Fundação Manaus Esporte 

Apesar de ainda estar longe do necessário para uma cidade com a grandeza da capital Baré, um acerto da prefeitura foi a criação da Fundação Manaus Esporte (FME) que atualmente conta com 50 polos de lazer para a população, em todas as zonas da cidade. 

Entre as atividades desenvolvidas estão dança, corrida, jiu-jitsu, ginástica comunitária e muitas outras atividades para lazer da população. 

Conversamos com pessoas dos bairros Compensa, Petrópolis e Santa Luzia, para saber se esses locais dispõe de ambientes adequados para prática de esportes e recreação, e essa é uma pauta que os moradores cobram há bastante tempo. 

André Mamede, 24, disse que é morador do bairro Petrópolis durante toda a vida, e poucas foram as vezes que viu atuação da prefeitura em seu bairro, no que se refere a cultura e lazer. 

“Acredito que os lugares de lazer que existem no bairro são dois campos de futebol. O passo mais importante para aproximar a população a usar esse espaço é a segurança e posteriormente a ampliação desses ambientes. Existem alguns projetos que estimulam a prática de atividade física, zumba e percursos de exercícios, mas são realizados de forma independente pela comunidade e sem o apoio”, enfatizou. 

Em um dos bairros mais tradicionais de Manaus, a Compensa, o lazer para a população também é um desafio, muito por conta da insegurança que toma a vizinhança, com o crime organizado cercando o local.

Uma pessoa que não quis se identificar, conta que não há projetos de arte ou lazer que são aplicados no bairro, e a falta de segurança só piora a situação. 

“O lazer aqui é uma m*, não temos arte, não temos esporte. O que mais acontece aqui é moleque levando ‘bala’ enquanto tá jogando pelada. O crime já tomou conta dos poucos espaços que tinham", relatou. 

Cinema para todos

Como falamos anteriormente, a distância afeta de forma pesada o acesso a cultura para moradores de zonas mais distantes e, após três anos de gestão, a prefeitura de Manaus realizou apenas uma edição de cinema comunitário, que levou o filme ‘O Gato de Botas 2: O último pedido’ para alunos e pais de uma escola na zona rural da cidade, na BR-174, bairro Tarumã.

Foram precisos três anos de gestão, para que algumas crianças e seus pais pudessem ter uma experiência próxima a uma sala de cinema, o que mostra o abismo social quando se fala em acesso à cultura. 

Esse mal não está apenas em Manaus, e de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pretos e pardos, maior parte da população do país, não tem acesso a dispositivos culturais, e 44% das pessoas vivem em cidades que não tem cinemas privados, públicos ou comunitários. 

Quando os projetores cinematográficos chegaram, fizeram um extremo sucesso, e com o passar dos anos Manaus teve mais de 20 salas de cinema no centro da cidade, que foram aos poucos substituídas por cinemas dentro de Shoppings e centros comerciais. 

Hoje, a capital conta apenas com o Cine Casarão como cinema de ‘bairro’, que busca levar acesso à cultura por meio de ingressos a baixo custo, na contramão das grandes empresas de cinema que atuam no mercado.

João Fernandes, diretor do Centro Cultural Casarão de Ideias (CCCI) falou com exclusividade ao Diário da Capital sobre suas impressões do cenário cultural de Manaus e a falta de apoio municipal. 

“Quando criamos o Cine Casarão, ele foi pensado justamente para dar espaço a produções feitas no Norte, e também para o cinema nacional que, dificilmente, chega nas salas das grandes redes”, afirmou.

O diretor afirmou que o trabalho é exaustivo, porém gratificante, mesmo com a dificuldade de apoio do setor público ou privado. Para ele, o Norte é extremamente importante para a cultura nacional, e que deve ser valorizada pelos seus, para que possa também ser querida pelos de fora da região.

É importante lembrar que o Casarão recebeu do Expocine, maior encontro do mercado de cinema da América Latina, o prêmio na categoria Exibição, por priorizar em programação filmes nacionais e regionais.

Sobre os incentivos por parte da prefeitura, para ajudar o trabalho a alcançar mais pessoas e incentivar, o diretor chama atenção para a valorização das produções locais. 

“O CCCI conta com incentivo do Estado em eventos específicos. Já com a Prefeitura de Manaus não temos nenhum tipo de parceria e não recebemos nenhum tipo de incentivo. 

A esfera municipal poderia dialogar mais com os movimentos culturais da cidade de uma forma geral. Entendo a importância de se trazer grandes nomes para Manaus, mas é preciso valorizar quem é da casa. 

Independentemente de posicionamentos, os artistas locais, os fomentadores de cultura merecem um pouco mais de respeito e de um olhar diferenciado", ressaltou.

Com essa visão, o Casarão não exibe apenas ‘blockbusters’, valorizando a cultura local em exibições de produção regional. Os ingressos ficam entre R$ 16 e R$ 8 (meia entrada).

Sem executivo, o popular atua 

Sentindo a falta do poder público, o ‘Movimento Nepal Vive’ (MNV) foi criado pelo artista Dighetto, no bairro Nova Cidade, para levar cultura, lazer e arte para os seus.

Em 2023, o movimento realizou o primeiro Dia das Crianças da comunidade Nepal. A falta de ações de lazer, principalmente com crianças e jovens pela prefeitura, é o que incentiva projetos como esse. 

Conforme o artista ‘Jovem Rain’, que vive na comunidade, as opções de lazer são extremamente limitadas.

“Outro evento oferecido pelo MNV, é o de cinema na comunidade. É assim que as crianças do bairro conseguem ter acesso a um pouco de cultura. O único espaço que temos é uma ‘pracinha’ com alguns equipamentos de exercício ao ar livre", enfatizou.

Geralmente ações como o dia das crianças são ofertadas no Parque Cidade da Criança, localizado no Aleixo, que até um tempo atrás estava fechado para revitalização. 

O prefeito David Almeida informou que o espaço seria reformado e entregue para a população desfrutar, e disse que “Há três meses, vim visitar o local e estava totalmente abandonado e, rapidamente, pedi que se fizesse uma revitalização”, afirmou.

Há intenção era boa, mas o prefeito parece ter esquecido que, se esse grande espaço de lazer estava em más condições, é uma confissão que sua gestão não atentou ao local por três anos…

No bairro de Santa Luzia, conversamos com Felipe Ruan, de 23 anos. O morador conta que cresceu na comunidade e viu poucas áreas de lazer sendo construídas, e que ainda hoje elas não recebem manutenção para que a população continue desfrutando.

“Não temos nenhum espaço para apresentações, não tem um investimento da prefeitura para que se possa ter algo diferente. Certo tempo atrás, atividades como escolinhas de futebol, aulas de zumba e treinamento para condicionamento físico foram feitas por moradores que tentam fazer algo para a comunidade. Infelizmente, a prefeitura não tem feito muitos esforços para que essas atividades sejam praticadas na comunidade”, relatou. 

Impacto ambiental no lazer

Na década de 30, Manaus ainda não possuía a população, nem território habitado que hoje apresenta, sendo possível ver por meio de estudos, que a cidade possuía balneários com igarapés limpos, o que hoje é impensável. 

Conforme o mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Rildo Figueiredo Pinheiro, o Igarapé do Mindu foi um ponto de encontro dos manauaras por muitos anos. 

Nele era possível passear de canoa e banhar-se, algo impossível atualmente.

Em seu estudo, ‘Atividade Física e Ambiente Urbano: lazer e desporto no entorno do Igarapé do Mindu’, Pinheiro aponta que o interesse da elite, crescimento desordenado de população e industrialização sem métricas ambientais, mataram as águas e flora do Parque do Mindu. 

Hoje, ainda é possível fazer trilhas pelo parque, no entanto, o cheiro forte das águas não é nada atrativo, nem lembra a opção de lazer que um dia já foi. 

Em setembro deste ano, enquanto falava sobre a revitalização do Parque dos Bilhares e entrega do Parque Amazonino Mendes, o ‘Gigantes da Floresta’, o secretário municipal de Meio Ambiente, Antônio Stroski, afirmou que a prefeitura de Manaus traça planos para recuperar o Igarapé do Mindu e seus afluentes, uma empreitada que poderia mudar o rumo do lazer em Manaus.

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