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Manaus: A sociedade da água engarrafada

“Quando eu cheguei aqui em Manaus eu botava [água para beber] nas panelas. Eu ia pegar lá num beco que tinha lá embaixo”

Escrito por
Letícia Misna
October 30, 2023
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A “água mineral de mesa”, ou “água envazada”, é comercializada por empresas que obtêm fontes naturais ou por extração subterrânea. O Brasil, além de importar e exportar sua água, está no ranking dos 20 países que mais consomem o produto internamente, de acordo com dados do Serviço Geológico do Brasil.

Em meio a esse comércio, existe Manaus.

Manaus está cercada pela maior bacia hidrográfica do mundo. Quem vê de fora acha que, por ter um fragmento de rio em cada esquina, ter acesso a água mineral é simples. Mas não é.

Grande parte da população local abastece suas geladeiras com garrafas PET (sigla para “Polietileno Tereftalato”, um polímero termoplástico) ou seus bebedouros com garrafões de 20 litros. Engarrafar a água já se tornou parte da cultura manauara. Mas por que, mesmo com tanta tecnologia e tanta água, continuamos dependentes do plástico?

CAPÍTULO 1: NASCENTE

“Está, intimamente, ligado ao fator econômico, simplesmente isto...”, responde Sergio Duvoisin Junior, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e coordenador do ProQAS/AM, um grupo de pesquisa formado por alunos da instituição que visa monitorar a água, o ar e os solos do estado.

“Uma mudança de hábitos das pessoas poderia mudar este caminho, mas ainda o fator financeiro é pesado. O uso de recipiente de vidro tem muitas vantagens com relação ao plástico, entretanto continua sendo muito mais caro que recipientes de plástico”, explica Duvoisin.

Muitos fatores refletem a escala social, e parece que até mesmo a água que bebemos. É como se ela, base de vida de todo ser humano, “melhorasse” à medida que seu poder de aquisição aumenta.

Em Manaus, é difícil encontrar água mineral armazenada em vidro. Fizemos uma pesquisa com 103 leitores do Diário da Capital, espalhados por todas as zonas da cidade. Desse total, apenas uma pessoa citou o vidro.

A grande maioria (63,1%) respondeu que utiliza bebedouro. Em segundo lugar (14,6%) ficaram os filtros ligados direto ao encanamento, e em terceiro (8,7%), as garrafas PET, geralmente antigas embalagens de refrigerante, com água direto da torneira.

Marlucia Ventura faz parte desses 8,7%.

Imagem: Letícia Misna & Gabriele Garuti

CAPÍTULO 2: POTE DE BARRO

Ela tem 56 anos e mora em Manaus há 25. Nasceu e cresceu em Lábrea, interior do Amazonas, a 856 km da capital, com seu pai, sua mãe e vários irmãos. Assim como grande parte dos municípios do estado, principalmente os mais afastados da região metropolitana, Lábrea é um desses que demorou para desenvolver o básico.

“Eu bebia água no pote. Eu não tinha geladeira, não. A gente pegava da torneira e botava no pote. Ou então nos igarapé que tinha água limpa, a gente ia e pegava. Naqueles olho d’água que escorria água, a gente pegava água, coava, botava nos pote e bebia”, lembra Marlucia, que só tomava água gelada quando ia na casa de uma vizinha.

O pote ao qual ela se refere eram feitos de barro e constantemente utilizados nos interiores do país, assim como o famoso filtro de barro.

“Quando eu cheguei aqui em Manaus, eu não tinha nem um pote desse, nem um filtro desse. Eu tinha duas panelas maior, aí eu botava [água para beber] nas panelas. Eu ia pegar lá num beco que tinha lá embaixo. Aqui na Grande Vitória não tinha água, aí eu bebia nas panelas quente. Ah, se eu tivesse um pote desse, um filtro desse, quando eu vim morar aqui...”, conta.

Ela se mudou para o bairro Grande Vitória, localizado na zona Leste de Manaus, no começo dos anos 2000. Na época, o lugar não possuía água encanada, e os moradores dependiam de um único poço comunitário que ficava no fim da rua (uma ladeira). As famílias então se reuniam, geralmente no fim da tarde quando o sol dava uma trégua, para descer até lá e encher o que desse. Geralmente os adultos voltavam carregando os baldes, e as crianças, as garrafas.

Naquela época, os refrigerantes em PETs de 2L custavam menos de R$ 3, e as pessoas daquela comunidade costumavam comprar a bebida para conseguir ter um estoque de garrafas suficiente para suprir suas famílias.

Hoje, ainda morando no mesmo lugar, Marlucia divide a casa simples com dois filhos e um neto – e uma geladeira. Refletindo a realidade de quem vive na periferia, um de seus desejos seria ter um bebedouro, mas ainda seria algo pesado: além do fato do aparelho não ser tão barato, a família ainda teria que gastar com a aquisição dos garrafões de 20L (que atualmente custam em média R$ 10) e com números a mais na conta de luz. O que parece pouco para alguns, ainda pode ser muito para outros.

Marlucia coloca várias garrafas no congelador, e depois as põe em um ambiente externo para descongelar e poder beber água refrescante. | Imagem: Letícia Misna

De acordo com o professor Sergio Duvoisin Junior, essas garrafas feitas de PET são produzidas a princípio para uma única utilização. “O que acredito que não se fale a respeito das garrafas PET é que o uso prolongado pode ir causando pequenas fissuras nas suas paredes, onde pode ocorrer a proliferação de bactérias, que podem ou não ser nocivas à saúde humana. Este é um fator que deve ser levado ao conhecimento da população”.

Marlucia utiliza as garrafas até perceber que estão ficando velhas demais.

Depois elas vão para o lixo.

CAPÍTULO 3: ATÉ TRANSBORDAR

Andar por Manaus é esbarrar em igarapés e, consequentemente, com o lixo que eles transportam – sempre com várias garrafas plásticas se fazendo presente.

“Tudo em exagero quebra os ciclos naturais. O uso excessivo de plástico gera esse volume descartado nos nossos rios, igarapés, e meio terrestre também. Então, pra ter reciclagem eu preciso ter a consciência ambiental”, ressalta Marcela Amazonas, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com foco em educação ambiental.

Marcela explica que a ideia de que a reciclagem salva o mundo ganha força, mas para ter reciclagem é preciso ter o resíduo, entretanto o ideal seria que não tivesse esse resíduo, ou seja: em grau de importância, a redução vem antes da reciclagem.

Com a atual seca histórica do Rio Negro (12,70m), a praia da Ponta Negra, localizada na zona Oeste de Manaus, começou a mostrar o lixo que nela dorme durante os períodos normais. | Imagem: Letícia Misna

“A nossa realidade não é salvar baleias ou tartarugas marinhas. Nós temos coisas muito mais primordiais e que não conseguimos fazer. Por exemplo, eu preciso ir na Ponta Negra e não jogar na areia, mas se eu for na areia vou ter que andar muito porque não tem coletor perto. Se eu for no Largo de São Sebastião, eu não tenho coletores adequados pra aquele público. O ser humano gosta de bando, gosta de ser aceito, e cuidar do meio ambiente ainda tem essa voga de ser coisa de “radical”. Não, é uma questão de sobrevivência, e o nosso verão amazônico tá mostrando isso”, explica Marcela.

Por exemplo, eu preciso ir na Ponta Negra e não jogar na areia, mas se eu for na areia vou ter que andar muito porque não tem coletor perto”. | Imagem: Letícia Misna

Outro fator agravante, além da poluição diretamente urbana, são os lixões e aterros sanitários, que nada mais são que esses resíduos transportados “para longe” da cidade, mas que, mesmo assim, acabam indo parar nas águas amazônicas.

“Sempre os lixões e aterros sanitários, de alguma maneira, vão afetar a qualidade das águas brutas dos rios e igarapés que estão no seu entorno, e isto também acontece aqui em Manaus”, explica, ainda, o coordenador do ProQAS/AM.

“Um exemplo muito local”, continua, “é o Igarapé do Tarumã-Açu, que tem como um fator que diminui sua qualidade de águas, justamente, o aterro sanitário da cidade. E está com o risco de piorar com a implantação do aterro sanitário próximo ao Igarapé do Leão. Este também é um projeto que faz parte do Programa de Monitoramento de Água, Ar e Solos do Estado do Amazonas, mas que ainda não tem financiamento para sua execução”, diz.

Igarapé do Tarumã-Açu e a espuma tóxica, oriunda da poluição, que surge todo ano geralmente no período da estiagem. | Imagem: Letícia Misna

Dos 15 projetos que fazem parte do ProQAS/AM, tanto o de monitoramento da água de consumo humano, quanto o de impacto de aterros e lixões estão à procura de financiamento. “São projetos fundamentais para a população da cidade de Manaus, bem como para o interior do Estado, pois sua implantação começa em Manaus, mas já está previsto sua implementação em todos os municípios. A população necessita deste tipo de estudo para ter a tranquilidade de consumir uma água de boa qualidade, pois além de essencial à vida, a água é vetor primordial a saúde pública”, ressalta Duvoisin.

CAPÍTULO 4: NEM TODA ÁGUA É TRANSPARENTE

Para além das garrafinhas vendidas nos sinais, a indústria de águas minerais lucra com as garrafas de 20L, que funcionam através de um sistema retornável: ao comprar um novo garrafão, é preciso que o cliente também entregue seu recipiente vazio. O problema é que esse tipo de embalagem também tem um tempo de vida útil, que, determinado pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), é de três anos.

Imagem: Letícia Misna

A portaria exige ainda que a distribuição e a comercialização de água mineral em vasilhame retornável deve seguir integralmente as normas constantes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) 14.638, que dispõem que: devem ser rejeitados os garrafões que apresentarem alguma evidência de contaminação com gasolina, pesticidas, fezes, sangue e outros produtos. Estes garrafões devem ser destruídos ao se detectarem tais problemas.

Recomenda-se, ainda, que os garrafões em retorno para um novo ciclo de uso sejam submetidos à avaliação visual individual, de forma a detectar defeitos como amassamento, boca quebrada, ovalização do gargalo, deformação interna ou externa do gargalo, furos e rachaduras, ranhuras internas, remendos e outros.

Tentamos entrar em contato com todas as empresas que vendem água mineral em Manaus (cerca de oito), para saber se estão seguindo as normas estabelecidas, e entender, principalmente, o destino final dos garrafões após o fim de sua vida útil. Mas, até o fechamento desta edição, nenhuma havia respondido.

A maioria, na verdade, nem ao menos atendeu aos nossos insistentes contatos.

Também analisamos a comunicação entre as empresas e o público. Algumas poucas, de fato, disponibilizam informações importantes em suas páginas, como a qualidade e o processo de produção. Mas grande parte não faz.

CAPÍTULO FINAL: ÁGUA NA GARRAFA OU GARRAFA NA ÁGUA?

Por fim, sabemos que a água chega em nossas casas, mas não sabemos de onde ela vem, e nem para onde o lixo gerado “por ela” vai – até vê-lo boiando por aí.

Imagem: Letícia Misna
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