Matérias
Amazonas

MANAUS 354: Onde energia elétrica ainda é artigo de luxo

“Simplesmente tenho que tá fazendo de tudo pra economizar. A gente não pode ligar um ventilador, não pode ligar um ar condicionado”

Escrito por
Letícia Misna
October 27, 2023
Leia em
X
min
Compartilhe essa matéria
Leia Também

Em 24 de outubro Manaus completou 354 anos, e em 22 de outubro, 127 da chegada da energia elétrica na capital. Mas não há muito o que comemorar, visto que a pauta ainda é um dos maiores incômodos da população manauara.

6H: HORA DE APAGAR (E PAGAR) AS LUZES

Abastecido pela Amazonas Energia, hoje o estado do Amazonas tem a sexta tarifa média mais cara do país, e a segunda da região Norte, com R$ 0,835 por cada quilowatt-hora (kWh), conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Imagem: Aneel

À primeira vista, o valor em centavos pode parecer baixo, mas no final do mês se transforma em um monstro de, pelo menos, R$ 400 batendo à porta das famílias manauaras de baixa renda, como é o caso da universitária P. R., moradora da zona Oeste da capital.

Ela vive com o marido, o filho e alguns animais de estimação, em um casa com o tamanho suficiente para comportar a pequena família, e todas as suas indignações em relação ao fornecimento de energia elétrica.

“Minha conta, logo no início quando eles instalaram, era em torno de R$ 800, e foi virando uma bola de neve. Foi parcelamento através de parcelamento, e a gente só se lascando pra pagar. Foi quando eu descobri o porquê tava vindo esse valor: eles tinham colocado na minha casa trifase, e no caso tinha que ser bifase, porque trifase é pra quando é comércio. Eles não têm o mínimo de verificação, de olhar qual a casa que é, onde é, eles não estão nem aí, diz que é obrigado a instalar e pronto acabou”, relata.

P. R. conta que passou anos parcelando suas dívidas e reclamando com a empresa sobre a instalação errada, até que eles resolvessem ir até o local trocar, o que, segundo ela, não mudou muita coisa.

“Porque eu ainda pago R$ 400 e é um absurdo, porque a pessoa que recebe UM salário mínimo quase que metade do salário vai pra energia, e nunca que eu consigo pagar, porque vence uma aí eu vou e pago, quando completa 30 dias que uma chegou, que chega a segunda, eu vou e pago, só assim que eu tento sobreviver, porque se tu passar 15 dias em atraso eles vêm e cortam tua energia. Vivem batendo na minha porta, cobrando, dizendo pra eu pagar, me botando medo porque se eu não pagar energia não estão nem aí”, diz a estudante.

9H: HORA DO CAFÉ E UM POUCO DE HISTÓRIA

De acordo com arquivos históricos, o primeiro sistema de iluminação pública de Manaus chegou em 1856, e consistia em lampiões movidos a gás de hidrogênio, mas a eletricidade só chegou na cidade, de fato, em 22 de outubro de 1896, através da Manaós Electric Lighting Company, em apenas seis ruas.

Avenida Sete de Setembro, em 1896, já com fiação e postes de iluminação pública; também é possível ver os trilhos do futuro bonde que circularia pelo Centro. | Imagem: Página Manaus de Antigamente

Foi só em 1898 que a eletricidade passou a ser concedida a moradias particulares, primeiramente no Centro. O valor cobrado era uma taxa fixa baseada no tamanho dos imóveis.

De lá para cá, houve muitas mudanças de sistema, direção e valores, sempre cercados por polêmicas. A gestão da Amazonas Energia, por exemplo, coleciona algumas recentes.

Como a campanha publicitária que dizia “ser contra medidor é apoiar o crime”, em respostas às reclamações da população sobre a instalação do Sistema de Medição Centralizada (SMC), que, segundo a empresa, é capaz de medir a energia de 12 casas ao mesmo tempo e reduzir as ligações clandestinas (“gatos”).

Entre as reivindicações das pessoas, está a de que o aparelho, já instalado em alguns locais, passou a aumentar a conta de energia das casas – o que a Amazonas Energia negou.

A empresa enfrentou alguns processos judiciais sobre os SMCs, chegando a ser proibida de instalá-los. Mas a decisão foi revogada, e agora segue colocando os equipamentos por toda Manaus.

Outra polêmica é o serviço prestado, que frequentemente é interrompido, seja para as famosas manutenções programadas, ou as que ocorrem semanalmente em mesmos bairros sem nenhuma explicação.

12H: A PIOR HORA

Já é senso comum que Manaus é uma das cidades mais quentes do Brasil. Em 2 de outubro de 2023, o município bateu o recorde de dia mais quente dos últimos 30 anos, registrando 39,2°, conforme dados do  Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O que não deve fazer parte desse “senso” é que o clima afeta diretamente a qualidade de vida de quem mora por aqui.

Em Manaus, é comum dizer que “existe um sol para cada pessoa”. | Imagem: Letícia Misna

Na hora do almoço, quando o sol atinge seu ponto máximo no céu, é quase impossível andar na rua, assim como é quase impossível ficar dentro de casa sem ar condicionado (ou pelo menos o vento quente do ventilador). Mas, mesmo assim, algumas pessoas ainda são obrigadas a utilizar os aparelhos apenas à noite e (tentar) acostumar-se a uma vida insalubre durante o dia – ou é isso ou ficam sem comer.

Ter aparelhos de refrigeração em casa não é mais questão de luxo, o luxo é o ato de ligá-los.

“Simplesmente tenho que tá fazendo de tudo pra economizar. Ainda mais nesse tempo de calor que a gente tá agora, a gente não pode ligar um ventilador, não pode ligar um ar condicionado. A gente só liga o ar condicionado à noite e a gente tem que tá sempre desligando, se não simplesmente a conta vem um absurdo. Máquina de lavar a gente tem que lavar uma vez na semana, e a luz a gente liga quando já não dá pra enxergar nada dentro de casa. De todas as contas que eu pago, a minha maior indignação é pagar energia, porque eu acho que a gente deveria pagar uma taxa só, e não esse absurdo que a gente paga, porque todo mundo precisa de energia pra sobreviver”, ressalta P. R.

17H: HORA DA TRÉGUA

A principal matriz energética do Amazonas atualmente são os combustíveis fósseis, como gás natural e petróleo, além das hidrelétricas de Balbina (AM) e Tucuruí (PA), mas possuímos um grande potencial de energia solar, conforme conta Eron Bezerra, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e líder da Unidade de Pesquisa em Energia, Clima e Desenvolvimento Sustentável (Upec).

O grupo já inaugurou quatro prédios de energia solar na instituição, duas na capital, uma em Parintins e uma em Itacoatiara, com previsão de instalação ainda em Benjamin Constant, Coari e Humaitá.

Placas solares instaladas na Ufam/Manaus. | Imagem: Upec

“Nós não temos potencial eólico porque temos pouco vento, e além de ter pouco vento ele não é direcional, vem de todos os lados. Nós não temos potencial de energia hidráulica porque o Amazonas é uma grande planície, então quando você vai fazer uma hidrelétrica você vai provocar uma grande barragem, uma grande inundação para produzir pouca energia, que é o caso, por exemplo, de Balbina, que inundou 236 mil hectares de água para produzir nada mais nada menos que 150 megawatts (MW) de potência instalada”, destaca Eron.

Lago de Balbina, considerado o maior desastre socioambiental do Amazonas. | Imagem: Emile de Souza

Segundo ele, se 0,18% do lago de Balbina forem cobertos com painéis solares, será produzida toda energia que a hidrelétrica foi projetada para gerar. E, ainda, a utilização de 2% do lago com as placas seria capaz de abastecer todo o estado do Amazonas.

Manaus já possui algumas fazendas de energia solar, como a da Brasol e da Bemol – esta oferece o serviço aos clientes da loja. Além disso, algumas pessoas já fazem uso do sistema de forma independente, como é o caso de Marcelo Seráfico.

“Eu comecei a usar energia solar por três razões. A primeira é porque estávamos construindo uma casa e no processo decidimos que seria importante usar alguns métodos de sustentabilidade. Segundo, nós queríamos economizar com as contas de energia elétrica. E o terceiro é porque essas duas constatações tinham a ver com uma posição política acerca da necessidade de encontrar outros modos de produzir energia e, na medida que individualmente a gente pode contribuir com isso, ainda que seja caro, e portanto não esteja acessível à maioria das pessoas, seria importante contribuir”, explica.

Apesar de ideal, energia solar ainda é uma utopia, principalmente para as famílias de menor poder aquisitivo. Os kits, com placas o suficiente para abastecer casas que consomem em torno de 300 kWh por mês, variam entre R$ 3 mil, R$ 15 mil, R$ 20 mil e subindo, uma realidade totalmente fora da realidade.

Mas é preciso começar de algum lugar. A Upec está construindo um mapa solar e métrico do Amazonas, com equipamentos já instalados em Manaus e em outras cidades do interior.

“Vamos propor, portanto, a partir desse estudo, a mudança da matriz energética, de fóssil a base de combustível para solar. E aqui não se trata apenas de uma questão ecológica e ambiental, embora seja um objetivo importante da nossa parte, porque cada mil kW de energia produzia com solar eu reduzo 1.2 toneladas de dióxido de carbono do ar, então isso tem uma equivalência a 55 árvores plantadas”, explica ainda Eron Bezerra.

Para ele e sua equipe, vai além disso. “Vai na questão da sustentabilidade, aqui entendido como “redução de dependência”. Eu não posso depender de uma energia que, além de poluente, é cara e de difícil acesso. Agora com a seca que tem na Amazônia, algumas comunidades não podem ser abastecidas, então como é que eu vou manter essas comunidades a base de óleo diesel, se eu sequer posso levar óleo diesel pra lá? Levar óleo diesel pra comunidades isoladas no Alto Rio Negro, no Alto Solimões, no Alto Japurá, no Alto Juruá, no Alto Purus, é mais caro que o próprio preço do combustível, portanto é completamente irracional”, ressalta.

“O projeto que nós instalamos na Ufam, quando já estiver inteiramente funcionando, vai produzir uma economia de R$ 1 milhão e meio na conta de luz da Ufam por ano. Não é pouca coisa e nós queremos que todas as prefeituras, que todas as pessoas possam fazer, isso é o que nós estamos fazendo aqui e também estamos abrindo turmas de capacitação para todos que queiram aprender a usar energia solar e compreender a importância e o papel estratégico disso”, finaliza.

18H30: HORA DE ACENDER AS LUZES

Imagem: Letícia Misna
No items found.
Matérias relacionadas
Matérias relacionadas