Matérias
Política

Governo Bolsonaro comprou 19 toneladas de bisteca nunca entregues para indígenas na Amazônia

Duas empresas que ganharam as licitações ficam em Manaus (AM).

Escrito por
Rhyvia Araujo
May 13, 2023
Leia em
X
min
Compartilhe essa matéria
Leia Também

<p>Durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governo federal chegou a autorizar a compra de 19 toneladas de bistecas que seriam incluídas em cestas básicas destinadas ao Vale do Javari, no Alto Solimões (AM). Mas, ao que tudo indica, o alimento nunca chegou às comunidades indígenas. Mesmo se o produto tivesse sido entregue, não haveria local de armazenamento e conservação para acomodar a carne. É o que revela a reportagem do Estadão, neste domingo, 14, onde afirma que o contrato de mais de meio milhão de reais (R$ 568,5 mil) foi assinado pela Funai, antiga Fundação Nacional do Índio, entre os anos de 2020 e 2022, durante o mandato do então presidente Jair Bolsonaro. Parte deles continua em vigor na atual gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.</p>

<h2><strong>Sumiço das bistecas</strong></h2>

<p>Com base na denúncia, o sumiço das bistecas foi confirmado pelos próprios indígenas que deveriam receber o produto por meio de um comerciante que deveria enviá-lo. A própria funcionária da Funai, que assinou o contrato de compra, reconheceu o desperdício do dinheiro público. “Nem tudo que constitui a cesta básica contempla uma alimentação específica desses indígenas. Era um desperdício, realmente, do dinheiro público”, admitiu Mislene Metchacuna Martins Mendes, atual diretora de administração e gestão da Funai. “Parte dos alimentos chegava sem condições para consumo, mas a ordem era entregar”, disse ela.</p>

<p>Ela ainda alega que seguia ordens de seus superiores. “Na ocasião, foi feito uma Informação técnica e enviada à Presidência da Funai, destacando as diferenças culturais e especificidades alimentares dos povos indígenas do Vale do Javari, mas nunca foi considerada. Então, a ordem da gestão anterior era que os servidores entregaram cestas básicas”, justificou.</p>

<p>As cestas que efetivamente chegaram para os 13.330 marubos, matises, kanamaris e korubos continham apenas produtos secos, como arroz, farinha e sabão. A reportagem afirma ainda, que metade das compras de alimentos para os indígenas em todo o país, cerca de 5.500, foram feitas sem licitação, utilizando a justificativa da pandemia de Covid-19 e, mesmo assim, não houve comprovação de entrega completa das cestas básicas. De acordo com líderes do Acampamento Terra Livre, em Brasília, o relato é o mesmo: a entrega de cestas básicas não é algo comum nas aldeias.</p>

<p>A principal organização indígena do Vale do Javari questiona o paradeiro das bistecas: “Nós não recebemos alimentação. Fazer a aquisição e enviar para a aldeia não existe”, afirmou o coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Bushe Matis. Ele afirma que tudo não passava de “lavagem de dinheiro público".</p>

<p>O indígena e coordenador da Funai, Walciley Duarte, que trabalhava em uma base da Funai desde o fim de 2021, também afirma que “a entrega de bistecas congeladas nunca aconteceu para os indígenas”. Duarte destacou que só na metade de 2022 o local recebeu um gerador de energia elétrica para armazenar produtos perecíveis. O governo Bolsonaro, porém, fez empenhos para a compra de bistecas congeladas e outros produtos resfriados antes disso. Ainda em dezembro de 2020, a Funai liberou recursos para comprar 285 quilos de bisteca bovina congelada para o Vale do Javari.</p>

<h2><strong>Empresas envolvidas</strong></h2>

<p>O governo de Bolsonaro efetuou pagamentos que somaram R$ 13,4 mil para a compra de meia tonelada de bistecas, após selecionar as empresas para fornecer a carne no Vale do Javari. Duas delas que ganharam as licitações ficam em Manaus (AM), a mais de 1 mil quilômetros das cidades que dão acesso ao território indígena.</p>

<p>Uma das empresas contratadas admite que a bisteca realmente pode não ter chegado aos indígenas. A ‘S B Freire’, localizada na capital de Manaus, tem a venda de roupas como principal atividade, e está registrada em nome de Sigrid Beleza Freire. O marido de Sigrid, Jorge Rodrigues, é quem cuida dos contratos. Ele afirmou ao Estadão que não pode garantir que o produto chegou ao Javari. “Não sei dizer se ele entregava. Os indígenas não tinham onde armazenar alimento perecível”, afirmou. Vale destacar que esse contrato específico com a S B Freire foi encerrado pela Funai pela não entrega das bistecas e outros alimentos previstos na cesta básica.</p>

<p>Na última licitação, feita no ano passado, uma terceira empresa, a H A de Aguiar, foi selecionada pelo governo como fornecedora de bisteca porque ofereceu o menor preço, de R$ 29 o quilo. A quantidade de carne aumentou, porém, na assinatura do contrato, tornando a compra mais cara do que a estimada inicialmente. Dessa forma, o contrato pulou de R$ 175 mil para R$ 197,2 mil. É esse contrato que foi mantido pelo governo Lula, embora as entregas não tenham ocorrido ainda.</p>

<p>O empresário Humberto Abrão de Aguiar, dono do estabelecimento, disse estar pronto para efetuar todas as entregas neste ano, mas já fala em pedir ao governo Lula o reajuste dos valores para dar conta da distribuição das bistecas. “Se você souber o tanto de índio que tem”, argumentou Aguiar.</p>

<p>O dono da “Irmãos Costa” é o único que atesta a entrega das bistecas. Apesar da confirmação de que no ano passado sequer havia congeladores no Javari, ele afirma que “eles têm freezer, vão de barco, tem uma logística”.</p>

No items found.
Matérias relacionadas
Matérias relacionadas