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Após três dias de evento, o Sou Manaus 2023 (Passo a Paço) reuniu mais de 420 mil pessoas, conseguiu um aumento de 70% na rede hoteleira durante o período, e foram gerados R$21 milhões. Um resultado bem positivo para a cidade, certo? Mas após a euforia, a pergunta que fica é, o que tem sido feito para recuperar nosso centro histórico?
História apagada, o abandono de construções históricas
Em Manaus existem mais de 100 prédios históricos no Centro, vários estão abandonados e à venda. Parte da história da capital que se degrada com o tempo.
Boa parte desses prédios é de propriedade particular, não sendo de responsabilidade da prefeitura sua manutenção, mas apenas fiscalização em casos de obras autorizadas, para que eles não sejam descaracterizados.

Muitos deles estão depredados e são invadidos por moradores de rua e por vezes por usuários de drogas, que usam como abrigo durante a noite. Fator social que vamos abordar melhor em outra matéria, mas sigamos com a problemática do abandono.
Agora, ao que compete a gestão municipal e estadual, o que de relevante tem sido feito? O prefeito David Almeida afirma que o evento Sou Manaus tem o objetivo de preservar o centro
“O evento se propõe a resgatar o Centro Histórico de Manaus e a adição deste ano cumpriu esse dever” disse em coletiva de imprensa concedida na sexta, 08.
Não é possível acreditar que em três dias de evento foi possível cumprir a missão de resgatar o centro histórico, até porque as milhares de pessoas que lá estiveram, deram uma demonstração de pouco cuidado com o patrimônio do município, espalhando lixo e todo tipo de sujeira nos arredores, apesar do trabalho de limpeza intenso realizado pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), que buscava retirar os materiais para reciclagem.

Se o Sou Manaus tem conseguido a proeza de resgatar o centro histórico, alguém deveria informar esse feito ao governo do Estado, já que a sede da primeira universidade do Amazonas e do País, a Escola Nilo Peçanha, sofreu ataques de vândalos em janeiro de 2023, e está sem reparos ou qualquer tipo de cuidado.

É visível a falta de interesse em preservar a história. Jamais um prédio que foi o berço do ensino superior poderia ser deixado às traças e ao alcance de qualquer pessoa má intencionada para destruí-lo como bem quiser.
É possível que alguém mencione a construção do Mirante Lúcia Almeida, a primeira obra no programa ‘Nosso Centro’, como forma de resgatar o Centro.
Ela realmente é uma construção importante para a cidade, mas que não chega nem perto de um resgate da importância que o Centro de Manaus, local onde nasceu a cidade, merece.
Restauração, ou quase...
Com a boa intenção de restaurar outro ponto marcante da história de Manaus, a Semulsp ‘revitalizou’ a estátua de Tenreiro Aranha, localizada na Praça 5 de Setembro, a famosa Praça da Saudade.
A estátua do primeiro presidente da província do Amazonas, feita totalmente em bronze, foi pintada com uma tinta dourada, o que gerou críticas por parte dos historiadores.
Conforme o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a intervenção na estátua não foi autorizada pela autarquia.
Depredação, falta de investimento e segurança
Décadas de esquecimento causaram a insegurança que é sentida pelas ruas do bairro. Furtos, mortes, baixo policiamento e outras diversas situações são as reclamações mais ‘comuns’ (coisa que não deveria ser) por parte de seus moradores.
Não bastasse Manaus ser classificada como a 21ª cidade mais violenta do mundo, pela ONG Seguridad, Justicia y Paz, a iluminação pública é defasada, com pessoas que furtam a fiação, causando pontos cegos para os que precisam andar pelas ruas quando o sol se põe, causando mais um motivo para o medo.
Em novembro de 2022, as novas luminárias e fiação da Ponte Sete de Setembro foram furtadas logo após sua revitalização, e dias antes de serem inauguradas pela prefeitura. A região da ponte é um dos locais em que os transeuntes mais reclamam de insegurança, justamente pela falta de iluminação.
Apesar disso, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) informou que trabalha incansavelmente para dar sensação de segurança aos moradores.
O baixo número de policiais também é um fato que não colabora para o policiamento intensivo que o Centro deveria ter. Em lei, o efetivo previsto de policiais militares é de 15 mil homens, atualmente estão na ativa 8 mil em todo o estado, e pouco mais de 3 mil estão lotados em Manaus.
Cerca de 3 mil homens para dar conta de uma capital com mais de 2 milhões de habitantes é uma verdadeira ‘Missão Impossível’, o que resulta nos altos índices de criminalidade, basta dar um ‘google’ e é possível ver diversas mortes na região, todos os meses.
Conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Amazonas está em terceiro lugar no ranking de estados mais violentos do Brasil, e criminalidade se espalha como uma praga em uma plantação, aos olhos de todos. É só olhar pelos muros e você verá pichações e avisos de facções criminosas pelo bairro.
Já que tocamos no assunto sobre pichação, a Poluição Visual é gritante. Muros tão riscados que não se sabe a cor original, placas de comércios sem padronização criando um verdadeiro carnaval, fios de energia, muitas vezes os famosos ‘gatos’, estão por todas as ruas e avenidas da região que deveria ser o rosto da cidade, por abrigar o início de sua história.
Apesar de existirem leis que tratem sobre a poluição visual, como a lei nº 12.408/2011, que prevê a detenção de três meses a um ano para quem pichar prédios ou monumentos urbanos, Manaus não possui um sistema de fiscalização para impedir a prática.
Fato esse que já foi observado pelo advogado Abraão Lucas Ferreira Guimarães, pelo Doutor em Direito Ambiental, Valmir Cesar Pozzetti e pela advogada Edvania Barbosa Rage, em seu trabalho ‘Poluição Visual na Cidade de Manaus’ publicado em 2022 pela Revista de Direito Urbanístico, Cidade e Alteridade, onde eles afirmam que:
“Verificou-se que, mesmo tendo havido no ano de 2021, um projeto realizado pelo poder público a fim de promover a limpeza visual do Centro Histórico da Cidade, reavivando o contexto histórico deste, as ações foram ineficazes”.
Outro fator que é mencionado por quem frequenta o centro da cidade, principalmente pelos comerciantes, é a falta de lixeiras para o descarte correto do lixo, situação que é refletida em lixo sendo jogado em qualquer lugar.

Fica evidente que o ‘legado’ dos grandes eventos para o Centro da cidade, só existe no campo das ideias, e que a região fica sem importância cultural (salvo o Teatro Amazonas e palácios ao seu redor) durante todo o ano pelo poder público, seja na esfera municipal ou estadual, tornando a ter uma função ‘histórica’ durante três dias por ano, sendo esquecido em seguida.
Mesmo que seja necessário cobrar as autoridades competentes, não podemos esquecer que uma cidade mais organizada e com suas vias limpas, começa com a ajuda de cada cidadão.
Mudamos o comportamento de baixo zelo com o que é público ou viveremos em uma cidade cada vez mais desorganizada.
