Matérias
Mundo

Protestos na França chegam ao quinto dia com casa de prefeito incendiada e mais de 2 mil presos

Segundo Jeanbrun, prefeito do subúrbio de L'Hay-les-Roses, os manifestantes chegaram a atirar um carro contra a moradia do autarca.

Escrito por
Rhyvia Araujo
July 1, 2023
Leia em
X
min
Compartilhe essa matéria
Leia Também

<p>A onda de protestos pelo assassinato de um jovem negro pela polícia francesa chegou ao quinto dia com a casa do prefeito do subúrbio de L'Hay-les-Roses, Vincent Jeanbrun, sendo incendiada pelos manifestantes. O mandatário estava na prefeitura, mas a esposa e os dois filhos, de 5 e 7 anos, estavam no local. Segundo Jeanbrun, os manifestantes chegaram a atirar um carro contra a moradia do autarca. O próprio denunciou a situação nas redes sociais.</p>

<p>“Ontem à noite, um marco foi alcançado em horror e ignomínia. Minha casa foi atacada e minha família foi vítima de uma tentativa de assassinato”. De acordo com o relato do prefeito, um grupo teria atirado um veículo blindado contra a casa e depois ateado fogo, – o ataque ocorreu por volta das 1h30. A mulher e um dos filhos ficaram levemente feridos. Uma investigação por tentativa de homicídio foi aberta, conforme informou o ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, acrescentando: “Os perpetradores responderão por seus atos hediondos”.</p>

<!-- wp:embed {"url":"https://twitter.com/VincentJeanbrun/status/1675365374550736899","type":"rich","providerNameSlug":"twitter","responsive":true,"align":"center"} -->

<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-rich is-provider-twitter wp-block-embed-twitter"><div class="wp-block-embed__wrapper">

https://twitter.com/VincentJeanbrun/status/1675365374550736899

</div><figcaption>Reprodução: Twitter</figcaption></figure>

<!-- /wp:embed -->

<p>Na manhã deste domingo, 2, a primeira-ministra da França, Elisabeth Borne, esteve na região e chamou os protestos de inaceitáveis. Embora ninguém tenha sido preso pela ação contra a família de Jeanbrun, até o momento, em toda a França, cerca de 2.800 pessoas foram detidas e mais de 200 policiais ficaram feridos, – apenas neste final de semana 719 manifestantes foram presos. Apesar disso, o governo de Emmanuel Macron tem alegado que as manifestações estão perdendo força e subiu o tom, anunciando reforço em medidas de segurança.</p>

<h2>O que ocasionou os protestos na França?</h2>

<p>Um policial matou a tiros o adolescente Nahel, que era de ascendência argelina, durante uma blitz no subúrbio parisiense de Nanterre, no início desta semana. Imagens do incidente mostraram dois policiais parados do lado do motorista do carro, sendo que um disparou sua arma contra o jovem, apesar de não parecer enfrentar nenhuma ameaça imediata.</p>

<p>O policial disse que disparou porque estava com medo de que o menino atropelasse alguém com o carro, informou o promotor de Nanterre, Pascal Prache. Ele também pontuou que o policial agiu ilegalmente ao usar sua arma. Atualmente, o policial está enfrentando uma investigação formal por homicídio e foi colocado em prisão preventiva. Desde então, manifestantes têm ocupado ruas das principais cidades do país, pedindo o fim do racismo e da violência nas abordagens policiais. houve queima de carros, saques a lojas e ataques a prefeituras, delegacias e escolas públicas.</p>

<h2>O que aconteceu desde terça-feira?</h2>

<p>Manifestantes chegaram a carregar cartazes que diziam “a polícia mata” e centenas de prédios do governo foram danificados, enquanto a morte de Nahel aumenta a raiva pelo preconceito racial no país. Noites sucessivas de violência em toda a França e seus territórios ultramarinos, por sua vez, levaram as autoridades francesas a lançar uma repressão.</p>

<p>Mais de 40 mil policiais foram mobilizados para patrulhar cidades em todo o país, 1.311 pessoas foram presas. Somente em Paris, 5 mil agentes de segurança foram mobilizados. Os oficiais receberam poderes para reprimir tumultos, fazer prisões e “restaurar a ordem republicana”, disse o ministro do Interior francês, Gerard Darmanin. Ele disse que 2.560 incêndios foram relatados em vias públicas, com 1.350 carros queimados, e que houve 234 incidentes de danos ou incêndios em edifícios.</p>

<p>O ministro do Interior, Gérald Darmanin, elogiou a atuação dos agentes de segurança.  Ele afirmou que a polícia tem apoio “inabalável” do governo para conter as manifestações. “Prioridade absoluta é dada ao restabelecimento da ordem republicana, à proteção das pessoas e da propriedade pública e privada”, disse Darmanin. Também foi requisitada a proibição da venda de fogos de artifício, galões de gasolina e produtos inflamáveis.</p>

<h2>Macron</h2>

<p>Macron delimitou 100 dias para pacificar o país e restabelecer sua presidência após semanas de protestos contra as impopulares reformas previdenciárias no início deste ano. Mas, as esperanças de uma redefinição agora provavelmente serão prejudicadas pelos protestos generalizados. Além disso, não passou despercebido que o presidente francês Emmanuel Macron foi a um show de Elton John na quarta-feira, 28, enquanto carros queimavam e prédios eram destruídos em todo o país.</p>

<p>O governo afirma estar trabalhando para evitar uma repetição de 2005, quando a morte de dois adolescentes que se escondiam da polícia desencadeou um estado de emergência em meio a três semanas de tumultos.</p>

<p>Desta forma, Macron interrompeu sua participação na cúpula do Conselho Europeu em Bruxelas, que deveria durar até sexta-feira. Ele anunciou a proibição de todos os “eventos de grande escala” na França, incluindo “eventos comemorativos e numerosas reuniões”, e implorou aos pais que mantivessem seus filhos em casa, dizendo que um terço das pessoas detidas durante a noite eram jovens.</p>

<p>O chefe de Estado também pediu que as plataformas de rede social ajudem a reprimir as manifestações, solicitando ao TikTok e ao Snapchat que retirem o “conteúdo mais sensível” e identifiquem usuários que usam “redes sociais para pedir desordem ou exacerbar a violência”.</p>

<h2>Questões levantadas</h2>

<p>Ativistas acreditam que a raça de Nahel foi um fator para sua morte, revelando tensões profundas sobre a discriminação policial contra comunidades minoritárias na França. O secularismo – conhecido como “laïcité” em francês – é um fundamento da cultura francesa, pois busca defender a igualdade para todos, apagando “marcadores de diferença”, incluindo raça. Mas muitos negros na França dizem que têm mais probabilidade de serem vítimas da brutalidade policial do que os brancos.</p>

<p>Um estudo de 2017 da Rights Defenders, uma organização independente de direitos humanos na França, descobriu que jovens considerados negros ou árabes tinham 20 vezes mais chances de serem parados pela polícia do que seus pares. Acusações de brutalidade há muito atormentam a polícia francesa. O Conselho da Europa criticou o “uso excessivo da força por agentes estatais” em um comunicado no início deste ano durante protestos contra as impopulares reformas previdenciárias de Macron.</p>

<p>O Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos chegou a divulgar um apelo para que o governo Francês resolva "seriamente” os problemas de racismo e discriminação na polícia. "Apelamos às autoridades para que garantam que o uso da força pela polícia para enfrentar elementos violentos durante as manifestações respeite sempre os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, não discriminação, precaução e responsabilidade", disse Ravina Shamdasani, porta-voz da iniciativa. </p>

<p>Em resposta, o Ministério de Relações Exteriores afirmou que “qualquer acusação de racismo sistêmico ou discriminação pela aplicação da lei na França é completamente infundada”. Segundo a pasta, “a França e suas agências de aplicação da lei lutam com determinação contra o racismo e todas as formas de discriminação. Não há dúvidas sobre esse compromisso.” </p>

<h2>Temporada de viagens</h2>

<p>Com o início da alta temporada de viagens, vários países emitiram avisos severos para aqueles que visitam a França, onde as redes de transporte doméstico foram interrompidas. O Ministério do Interior anunciou que o transporte público, incluindo ônibus e bondes, fecharia em todo o país às 21h (hora local), antes de uma quarta noite de protestos.</p>

<p>Toques de recolher limitados foram impostos em Clamart e Neuilly-sur-Marne, enquanto alguns serviços de ônibus foram interrompidos em Paris, mas o sistema de metrô estava operando normalmente. A estação ferroviária Nanterre-Préfecture foi fechada.</p>

<p>Em Lille, os serviços de ônibus e bondes funcionaram próximo do normal na sexta-feira, com alguns desvios. Na cidade de Marselha, no sul, o transporte público deveria interromper os serviços às 19h. Não houve interrupção no serviço Eurostar que liga Londres, Lille e Paris como resultado dos protestos. Os trens intermunicipais franceses também não foram afetados.</p>

<p>O Departamento de Estado dos EUA emitiu um alerta de segurança no dia 29 de junho, que incluía a França. Ele sugeriu monitorar os meios de comunicação para atualizações. Enquanto isso, a Grã-Bretanha emitiu um alerta de viagem instando os turistas a “monitorar a mídia” e “evitar áreas onde estão ocorrendo tumultos”.</p>

<p>As autoridades alemãs também aconselharam seus cidadãos a “se informar sobre a situação atual onde você está hospedado e evitar locais de tumultos violentos em grande escala”.</p>

No items found.
Matérias relacionadas
Matérias relacionadas