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Nacionalistas da Polônia atacam Alemanha

Disputas entre os países minam a solidariedade europeia em relação à Ucrânia

Escrito por
Thiago Freire
October 6, 2023
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A Alemanha se tornou alvo recorrente do governo nacionalista da Polônia em sua disputa para garantir um terceiro mandato sem precedentes nas eleições programadas para 15 de outubro.

Em meio a uma corrida acirrada pelo poder, os líderes do partido governista, o nacionalista de direita Lei e Justiça (PiS), acusaram Berlim de tentar ditar a política do governo polonês em todos os quesitos, desde migração até o gás.

Ambas aliadas da Otan, a Alemanha é a principal parceira comercial da Polônia. Mas a rivalidade atual desgasta a frente unida da Europa em apoio à Ucrânia na guerra travada pela Rússia, e acabou com um plano de uma fábrica conjunta polaco-alemã de reparação de tanques em benefício de Kiev.

A liderança populista do PiS se aproveita de uma desconfiança em relação à Alemanha, hoje ainda presente em parte do eleitorado polonês, sobretudo entre os idosos conservadores que se lembram da devastação da Segunda Guerra Mundial.

Em suas críticas, o PiS também alega que Berlim está conspirando para levar de volta ao poder o principal adversário eleitoral do partido, o ex-primeiro-ministro liberal Donald Tusk.

“Sabe onde você pode ler o programa [da campanha da oposição]? Nos jornais alemães”, declarou o primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, em evento de campanha.

Tusk conta que seu avô foi recrutado à força para o Exército da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra antes de escapar para o lado aliado. Mas o PiS o descreve como um fantoche alemão e o "marido político" da ex-chanceler federal alemã Angela Merkel. Um vídeo de campanha também zombou do atual chefe de governo alemão, Olaf Scholz.

Esses meses de desavenças entre os dois países vizinhos testam a solidariedade da aliança ocidental que se uniu em torno da Ucrânia após a invasão pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022.

E isso ocorre num momento em que outras questões, como a eleição de um líder pró-Rússia na Eslováquia, país-membro da União Europeia (UE), ameaçam uma ruptura dessa aliança ocidental.

“É muito inútil a Polônia, a gente do partido Lei e Justiça, continuarem a criticar a Alemanha de forma tão dura e pública”, comentou o general americano Ben Hodges, que comandou as forças dos Estados Unidos na Europa entre 2014 e 2017. “É inútil, porque coloca pressão sobre a relação entre os dois aliados da Otan, o que, por sua vez, prejudica a coesão geral da Otan”.

A disputa entre Berlim e Varsóvia já afetou até os esforços de ajuda à Ucrânia. Em abril, os ministros da Defesa das duas nações anunciaram a criação de um centro conjunto na Polônia para reparar tanques Leopard de fabricação alemã danificados em combate na Ucrânia. Mas o acordo fracassou rapidamente.

Embora os laços entre Alemanha e Polônia estejam estremecidos desde que o PiS assumiu o poder, em 2015, os poloneses consideram o pior cenário agora. Apenas 47% da população acha que as relações são boas, de acordo com uma pesquisa atual. Em 2020, essa porcentagem era de 72%.

Muitos poloneses, incluindo 56% dos entrevistados na sondagem, sentem que a Alemanha não tem feito o suficiente para compensar os danos infligidos pela guerra. O PiS vem exigindo que Berlim pague mais de 1 trilhão de euros em reparações, o que os alemães não aceitam.

Pedindo anonimato, uma fonte do PiS descreveu as relações como “competitivas”: Berlim e Varsóvia “conseguem cooperar em muitas questões”, porém em outras, como as reparações da Segunda Guerra, estão muito divididas.

O governo Scholz tem se esquivado dos ataques do PiS. Uma fonte governamental afirmou que Berlim está extremamente cautelosa para não provocar Varsóvia, mesmo que acidentalmente: "Estamos pisando em ovos", disse a fonte.

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